A palavra como fio condutor da memória

Uma análise de "Para Que Fique Escrito" à luz do inoportuno em "Húmus"

Por
Caio Lima

I

Direcionar a história ou determinar qual memória deve sobreviver ao caos do processo cíclico — e naturalmente contínuo — de “construção e destruição”, tido como necessário ao desenvolvimento e evolução naturais do indivíduo por vertentes de pensamento vigentes, é uma ferida aberta quando se trata da utilidade e/ou utilização da memória.

Há quem assegure a tese da existência de uma tendência natural por parte do indivíduo em transformar tudo em duplos, absolutamente. Os conceitos de vida e morte, por exemplo, estão atribuídos ao seu contrário imediato e giram no presente cotidiano, não obstante, num círculo restrito de significados e sentidos que não se assemelham a algo suficiente para defini-los, e, talvez, por esse motivo parecem necessitar ainda mais de um sentido unitário, cheio, concreto que as apropriem, que as amarrem; quão mais simples a vista, mais crível a paisagem. Desmistificar o reconhecimento automático da ideia do duplo pelo indivíduo está muito além de uma resposta plural e/ou “mais complexa” à vida e morte como palavras com múltiplos significados, como resultados de diferentes ações ou como a exposição de feridas abertas pela falta de alternativas ao longo do uso contínuo, das experiências, que cada indivíduo tem com ambas as palavras no tempo.

O encaixe das palavras em frases, pura e simplesmente, é incapaz de destituir do indivíduo o pensamento dos extremos, do “duplo instantâneo”, para lidar com uma pluralidade — inatingível em vida, frutífera em morte — até então incompreensível. A pretensa pluralidade, presente como conceito, está erradicada de bases fundamentais da formação ocidental por vieses culturais opressores que remontam os pilares do exercício escolar primário, sendo posteriormente refletida nos meios acadêmico e social. Portanto, o exercício de destituição do poderio exercido pela dualidade estrutural da palavra passa por uma transformação de tudo o que é existente em se tratando do cultivo, habitação e utilização da memória.

A arte, síntese dos plurais, ganha ares de movimento contracultural ao emergir como alternativa à memória para quem apenas enxerga antíteses, duplos, paradoxalmente impostas. Ao distinguir as muitas realidades existentes, e não menos coerentes, que os duplos comumente processados, a manifestação artística burla a realidade aparente e cria espectros que conduzem à dúvida e ao direito de exprimir palavras recônditas no substrato do que outrora fora considerado indizível. Torna-se, então, no momento presente, memória (ou faz-se história). Mesmo que para o ato de registrar a memória seja necessário o reuso e/ou ressignificação de palavras já conhecidas e bem determinas pelo uso extremo. Desta forma, a memória é um exercício de apropriação.

II

Em Para Que Fique Escrito, Vinícius Terra exerce o direito à apropriação da memória através da arte que produz e, por que não?, traduz.

Antecipando ações afirmativas ou protocolares “impostas” pelo Hip Hop, matriz cultural exageradamente estereotipada pelas formas e generalizações da composição do registro desta (do indivíduo; no caso, o próprio Vinícius Terra) ou doutras memórias vinculadas à perpetuação da cultura como um todo, Vinícius Terra decide tomar posse da palavra para narrar a própria memória à sua maneira.

Ao assumir a responsabilidade de criar uma narrativa autobiográfica, há o exercício automático e extremo por parte do indivíduo — excluindo quaisquer alternativas — de fazer quebrantável qualquer conceito ou senso que esteja entranhado como duplo na própria narrativa. Assim, tal responsabilidade por sobre as palavras usadas — e os sentidos imbuídos a elas — recai sobre os ombros do autor, que se torna a memória por si só.

A evocação das palavras para a constituição da ambiência do registro não é mais um mero recurso estilístico e/ou de aplicação e demonstração técnica com significados pré-estabelecidos, vigentes dentro de padrões provados e aceitos por certa comunidade, público, movimento ou cultura — levando-se em conta que no tempo presente a arte é, também, uma estrutura mercadológica de constante reprodução e o (tempo) presente, bem como a presença, se renovam a cada nova reprodução.

As palavras estão deliberadamente expropriadas de sentido e, vazias, são tomadas pelo indivíduo que as ressignifica a seu bel-prazer. No entanto, nesse ponto é impossível dissociar indivíduo e memória; e vice-versa. A unidade formada por palavra e indivíduo propicia a alteração imediata da realidade aparente, que pode ser dividida — não necessariamente em duplos, mas sendo parte de um todo, que se ramifica em diferentes percepções a serem consumidas e demonstradas pelo público através dos tempos — entre a conjecturada pela arte nesse mesmo tempo presente tratado pelo artista, contemporâneo à ressignificação das palavras; e a que se estende pelo tempo como memória consumível.

III

A abrangência da realidade, aliás, outorga a função da palavra em questão como unidade básica a ser utilizada para colocar o pensamento constituído por duplos à prova enquanto forma válida de construção social e objetificação da memória — como os conceitos de vida e morte. Afinal, qual a composição da realidade em que as palavras vida e morte habitam; dos significados que estas possuem? Então, para saber as palavras exatas que dão significado à vida, procura-se no dicionário e/ou em compêndios enciclopédicos e/ou pelo significado do seu duplo?

“A vila é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro.”

E a não exultação da morte; seria delinear um contra fluxo, aqui não-verbal, separando intuitivamente as palavras que tendem a significá-la mais que as que significam a vida, com sentidos e funções simbólicos (O luto, o uso das vestes pretas e afins são ações, culturalmente perpetuadas, não-verbais em criação, mas que, para extensão da memória — para que fiquem escritas —, precisam da verbalização — e, às vezes, da verborragia)? Viver por vezes é tão perene como verbo e como estado que pode assemelhar-se à morte, por que não? Assim Raul Brandão explana em Húmus:

“Sempre as mesmas coisas repetidas, as mesmas palavras, os mesmos hábitos. Construímos ao lado da vida outra vida que acabou por nos dominar. Vamos até a cova com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas. São as palavras que nos conduzem. Toda a gente forceja por criar uma atmosfera que arranque à vida e à morte. O sonho e a dor revestem-se de pedra, a vida consciente é grotesca, a outra está solapada.  Remoem hoje, amanhã e sempre, as mesmas palavras vulgares, para não pronunciarem as palavras definitivas. Toda a gente fala no céu, mas quantos passaram no mundo sem ter olhado o céu na sua profunda, na sua temerosa realidade? O nome basta-nos para lidar com ele. Nenhum de nós espera no que está por trás de cada sílaba: afundamos as almas em restos, em palavras, em cinza. Construímos cenários e convencionamos que a vida se passasse segundo certas regras. Isto é a consciência — isto é o infinito... Está tudo catalogado. Na realidade jogamos bisca entre a vida e a morte, baseados em palavras e sons. E, como a existência é monótona, o tempo chega para tudo, o tempo dura séculos. Formam-se assim lentamente crostas: dentro de cada ser, como dentro das casas de granito salitroso, as paixões tecem na escuridão e no silêncio teias de escuridão e de silêncio.”

IV

Lançado em 1917, Húmus é a obra-prima de Raul Brandão. Amorfo e sem marcações precisas de tempo e espaço, o romance suscita as mais extremadas reações por parte da crítica e do grande público. Alçado à alcunha de antificção, o livro é incapaz de passar despercebido, sendo alvo de constantes estudos e conciliações para com a literatura portuguesa nesse um século recém-completado desde a primeira publicação.

Em meio a dois acontecimentos cruciais para o entendimento do século XX como um todo - a I Guerra Mundial, que se estenderia até 1919, e a Revolução Russa, deflagrada no ano de sua publicação –, Húmus faz questão de não ser um evento grandioso tais quais as memórias de publicações contemporâneas à época.

O desenrolar da vida, que não se sabe o estado de regressão ou avanço, numa pequena vila, expõe a realidade da desimportante história das pessoas, principalmente das que estão afastadas dos grandes acontecimentos; todas arroladas pela pequenez de um destino infrutífero, substancialmente confinadas ao espaço e ao passar dos dias a disputar as desinteressantes posições hierárquicas e morais que lhes competem.

Se a história em si não traz nada de grandioso ou especial, Raul Brandão surpreende na forma em que decide compor a narrativa da vida — que não é viva — na vila que dá lugar à obra. Misturando entradas de diário, prosa-poética, recortes autobiográficos, ensaio e outras verves da literatura, tudo o que não existe em Húmus é ordem, precisão, enredo e personagens estabelecidos.

Pouca coisa é capaz de permanecer como memória durante a obra. É importante reiterar que nada se sabe do lugar, dos personagens e do tempo da narrativa. A solidez da memória se liquefaz. O apego dá-se pela raiz, pela elevação máxima da palavra, pelo reuso e/ou ressignificação da língua portuguesa como única expressão possível da memória.

Raul Brandão, desta feita, foi capaz de confundir a natureza, já natimorta, da vila que configura o espaço incerto em que Húmus existe como obra, com a força das palavras que carregam o romance como um fenômeno que se perpetua por mais de um século; mesmo tendo impregnado na sua composição a não formatação de modelos estéticos vigentes à época e a negação tácita da subsistência da memória através dos tempos por meio de rótulos.

V

A literatura é a forma mais antiga e, portanto, duradoura de induzir à realidade. A palavra, que permanece escrita, falada ou possuída, recebe peso e significados que subvertem a memória no exercício ambíguo de (re)escrevê-la. Talvez seja esse o motivo que faz a memória ser preterida à visão turbulenta de dois extremos convencionados e incapazes de coexistir no caos da criação, do novo e do plural.

O desenvolvimento da palavra enquanto memória tende a moldar a pluralidade dos significados atribuídos ao tempo presente. A modulação e contínua construção do espaço que permite tal pluralidade de significados às palavras determinam o relacionamento do indivíduo com a memória. Húmus, por exemplo, é pouco obsequioso ao revelar seu real sentido, causando extrema confusão e desconforto. O uso e o significado dados às palavras que permeiam o romance — ou a antificção — de Raul Brandão é o que permanece impregnado no imaginário e na memória da literatura.

“Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste...”

A sensação de morte, contextualizada no pleno exercício de narrar às vidas que compõem o livro a própria insignificância, confunde e aglomera, ao colocar em xeque as identidades ali dispostas, o pequeno dicionário que rege as convenções estruturalmente elencadas no imaginário das personagens.

E, se elevado o sentido e significado de Húmus para fora das páginas escritas, é possível reconhecer padrões e estender a confusão ou crise de identidade em Húmus para os mesmos moldes de desimportância encontrados um século depois da primeira publicação do livro, indo, verticalmente, de encontro à casta dos literatos e intelectuais lusófonos que, de maneira geral, permanecem conservadores, senão confortáveis, quando trata-se da pluralidade na língua portuguesa e as formas de alcançar a massa lusófona em sua totalidade:

“Na realidade isto é como Pompeia, um vasto sepulcro: aqui se enterraram todos os nossos sonhos... Sob estas capas de vulgaridade há talvez sonho e dor que a ninharia e o hábito não deixam vir à superfície. Afigura-se-me que estes seres estão encerrados num invólucro de pedra: talvez queiram falar, talvez não possam falar.”

Pouco se sabe sobre as condições que impeliram Raul Brandão a construir tal experimentação narrativa da forma que foi feita. Em meio a grandes revoluções de pensamento, há suposições de que o autor lusitano tenha bebido das fontes de Freud e Nietzsche devido ao seu total descrédito nos elementos humano e divino, tornando-os tão insignificantes quanto possível. Porém, a lucidez e a razoabilidade que tomam a obra como unidade ideológica, fazem Húmus elevar-se a uma nova condição dentro do que pode ser definido como literatura lusófona.

O último e visceral crédito de Raul Brandão é dado ao que pode ser criado a partir do reuso e/ou ressignificação da palavra e, consequentemente, a reinvenção e subversão da memória. Um contexto tão plural que abraça a insignificância das vidas expostas em Húmus.

VI

Para Que Fique Escrito comunica-se com Húmus em significado e elevação da palavra como forma de reinventar a memória, apesar de partir da defesa de pontos distintos.

 Enquanto a obra centenária força caminho através da solidão das palavras e das ideias recônditas em espaços confinados, a ponto de não conseguirem ser organizados num romance formal e atuando como uma ode à insignificância; Para Que Fique Escrito é um simulacro de protocolos desenvolvidos e dispostos pelo Rap (dentro do contexto que integra a cultura Hip Hop; e não como um estilo musical tão somente), os quais Vinícius Terra faz uso por opção ou formação ideológica:

“Para que fique escrito
E que sirva de meu testamento
Quando um dia eu me esquecer de onde vim
Às vezes eu desisto
Quando me perco em meus pensamentos
E o caminho fica estreito para mim
Para que fique escrito…”

O ideal que dá vazão ao refrão, composto pelo cantor e compositor de São Tomé e Príncipe, NBC (sigla para Natural Black Color), e introduz a música, externa a mesma importância da palavra como formadora ou guia, determinando caminhos para a pluralidade e, em consequência, identidade da memória a ser construída. A fundamentação cíclica de recuperação da vontade, considerada inata pelo registro, em redescobrir novas maneiras de tratar a própria memória, acaba por sobrepor o fatalismo e a troca entre vida e morte propostos, em Húmus, por Raul Brandão e as figuras desconhecidas que habitam a vila de “casas de granito salitroso”.

Formalizar a ideia de que a linguagem, a palavra por si só — célula unitária ou encadeamento ideológico —, é capaz de transitar e criar novos significados, permitindo o acesso a novos estágios da própria realidade, bem como a introdução à realidade de outrem, comunga para a criação de uma nova forma de tratar a língua e de desafio à capacidade formadora da memória

O movimento de revolução secular, iniciado em Húmus, que abrange a contemporaneidade da forma junto à ressignificação contínua e emprego da palavra como maneira de registrar a memória dentro da literatura, faz factível a comunicação entre Raul Brandão e Vinícius Terra nesse “tempo que dura um século”.

VII

A Nova Lusofonia, movimento apontado por Vinícius Terra como caminho a ser seguido, alcança novas formas de representatividade da língua portuguesa, única a ser falada nos quatro cantos do globo — países da América, Europa, África e Ásia têm o português como idioma pátrio. Para Que Fique Escrito consolida, portanto, o novo ideal lusófono, traçando concomitâncias entre dois registros que até então não se reconheciam completamente (a literatura e o rap) para ressignificar e afirmar o poder da palavra enquanto memória.

A literatura, enquanto palavra escrita, é reinventada através dos tempos, sendo também objeto que sofre de reuso ou ressignificação ou mal-uso (uso mais comum, segundo estatísticas), correndo os habituais riscos de permanecer presa à manias e formas antigas, perpetuando séries de preconceitos e/ou estados contemplativos e duais da realidade.

O rap, em contrapartida, faz um novo uso da palavra, que ainda está por ser descoberta em toda a sua profundidade e plenitude. Criada numa estrutura econômica globalizada e mercadológica, a cultura Hip Hop, a qual o rap é um dos pilares, é calcada na quebra de fronteiras e padrões impostos por regulamentações, costumes e/ou práticas que cerceiem a liberdade e a autonomia do indivíduo. Portanto, nada é mais natural dentro da cultura Hip Hop que o indivíduo seja o possuidor e, em consequência, narrador da sua memória, contemplando todos os aspectos de ambiência que lhe cabem e/ou lhe são convenientes.

Se a literatura atua como memória, fazendo do registro algo perpétuo de tudo quanto é desejado — porém não necessário —, pela palavra; o rap aponta para um novo caminho, que transforma a literatura perdida, ignorada, considerada desnecessária e/ou indesejada nos veios acadêmicos e/ou classistas da sociedade — imersa no duplo — também em memória, mas, agora, sem restrições. Para tal, o rap, como expressão artística, também deve apropriar-se da memória e exercer poder sobre a palavra a ser contada, ter voz própria; o que podemos configurar como presença ou vivência.

Para além da língua portuguesa, húmus da Nova Lusofonia, a memória é o que delibera as liberdades e a autonomia do movimento idealizado por Vinícius Terra.

VIII

Ao usar aliterações para ajudar a compor um quadro imagético, há uma remodelação do rap comum para algo mais profundo e contemporâneo dentro da própria poética da língua portuguesa e, prontamente, visando à adequação da linguagem, em todos os seus desdobramentos, entre música e poesia da maneira como são consumidas no tempo presente, de forma geral. São reformulações pequenas de estrutura descritiva, mas, quando postas em prática como em Para Que Fique Escrito, causam impactos enormes à capacidade de comunicação do rap enquanto música e, não menos importante, na manutenção do rap e da literatura próximos ao ideal da Nova Lusofonia, numa nova instalação da língua portuguesa:

“Labirinto: definitivamente
Mente ativa defini
Repente…”
“Verdade… Vaidade? Ávida vida!”

Há, portanto, uma permissividade e engajamento maiores em relação à oralidade e as conexões entre palavras, abrindo sentidos como forma de acelerar a comunicação e transcender barreiras que efetivamente dificultem a recepção de um registro autobiográfico nos moldes estereotipados como rap pelo imaginário comum.

O ato de falar torna-se, efetivamente, literatura. O rap exerce dupla função no jogral da Nova Lusofonia e, em particular, na memória de Vinícius Terra em Para Que Fique Escrito, portanto: a de registro e a de laboratório.

IX

É fato que em Para Que Fique Escrito não há menção ou referência a Húmus ou a persona de Raul Brandão; entretanto, torna-se imperativo que ambos estejam conectados por um fio condutor, raiz da memória e dos movimentos tangenciais que preenchem de significados ambas as obras: a ode à palavra, o vetor unitário da memória.

Referenciar épocas é natural ao tomar-se nota do valor imposto a cada palavra quando o indivíduo, por ventura, depara-se com registros carregados de palavras que desafiam a realidade aparente, convencionada ou indizível para o momento. Mais fácil seria assumir valores concretos para delimitar e classificar obras, numa ode à esquemas que causam infortúnio e tendem a reduzir obras plurais. Assim, no esmaecimento da realidade plural e na regressão da vida ao duplo concreto, fica o definido por Raul Brandão:

“Chegamos todos ao ponto em que a vida se esclarece à luz do inferno.”

A partir desse inferno, dá-se o processo que redefine o sentido cíclico em que é feita necessária a redescoberta e ressignificação dos vários sentidos que a vida, como ação e palavra, recebe por parte do indivíduo:

“Qual o teu verdadeiro ser? Eu mesmo não sei. Dá-me um trabalhão encontrá-lo e acho-me sempre em frente de cacos, a que não consigo dar unidade...”

Os registros, desta forma, encontram-se na eternidade a qual são capazes de criar a partir da negação da morte em vida, que seria a solidez opaca do duplo, num movimento que busca transmutar a realidade para fazer com que o “brejo ardente” de Vinícius Terra, por exemplo, signifique uma catarse da memória; e jamais um calabouço definitivo. A memória, o tempo e o espaço, no caso, são subservientes aos significados que podem ser atribuídos às palavras, aos nomes.

Ao criador é imperativo, parafraseando Raul Brandão, o “falar” para que o processo cíclico seja reiniciado em busca de reusar e ressignificar a realidade:

“São por bem tábuas rasas da solidão (em vão)
Mas, vem à mão (vem e vão)
Escrita: Fuga brusca em busca de quem?!
Porque a tinta é livre (as folhas também)
Judas: não me julgas além…
…Do mar, além da alma, além do mais
Amargo é o âmago que trago em trânsito
É o caos no cais…
(Quando um dia me esquecer de onde vim…)”

X

Quando a palavra, como unidade, concentra a memória, a forma com que é entregue sofre mudanças simultâneas ao processo. Em Húmus é evidente que a variedade estética do registro e a não especificação da equação tempo-espaço transformam a narrativa em algo quase ininteligível, prendendo toda a noção moral e sentimental do livro ao vetor unitário da memória, à palavra unicamente, a ponto de Húmus não ser aceito por determinados setores da sociedade e da academia ainda hoje.

“Ilusão, mentira, estúpido? Mas eu é que faço a verdade e a mentira. Eu é que a crio à custa de dor. Dou-lhe o meu bafo e a minha alma. Deus cria-me a mim - eu crio Deus. Uma verdade pode ser abjecta, uma mentira pode construir outro mundo - outro Universo - outro céu.”

Se à Nova Lusofonia aplica-se não apenas a língua como fonte de interesse, mas a atribuição de novas formas de fazer das palavras protagonistas e formadoras da memória, deve-se buscar, então, a expansão e interseção da língua portuguesa nas mais diversas fontes que a literatura pode proporcionar; mesmo as que causam estranhamento ou repulsa de certos setores ou movimentos satélites. Aplica-se, naturalmente, novos usos e significados às palavras em estratégias que tendem, alinhadas à pluralidade que o movimento toma para si, a transgredir o dual.

XI

Para Que Fique Escrito abdica quase que inteiramente das convenções estereotipadas do rap enquanto forma, apropriando-se de esferas da literatura lusófona contemporânea para abrir um novo veio de comunicação com os possíveis receptores da memória. Portanto, Vinícius Terra blefa (parcialmente) nos versos subsequentes ao refrão da canção:

“É tipo um rap das antiga
É quando a causa vale mais que a intriga
É quando o brinde vale mais que a bebida
Quando a ideia vale mais que a rima”

A ideia do resgate à memória, de valorar a palavra como unidade de registro-mor e validar a própria trajetória ao remontá-la de maneira incontida, são factíveis dentro do contexto designado pelo artista nos versos. Porém, se os primeiros versos estão estruturados em alinho e sentido estritos com a forma “tradicional” do rap, calcado em ideais métricos e rítmicos já bastante formalizados, o restante da construção segue por outras influências e ordenações que estão mais para pares poéticos que agem fora da cultura Hip Hop, mas dentro da poesia e da prosa-poética lusófonas contemporâneas, por exemplo:

“Telhado: zinco; mãe: doente
Menino: aflito (trinco o dente)
Solidão, paiol, afinco: brejo ardente
Conflito: mar de gente”

Convencionalmente, o “rap das antiga” tem função imagética inerente à construção da memória, e, tendo que Para Que Fique Escrito é um registro autobiográfico, Vinícius Terra não foge às raízes do rap. Entretanto, a associação livre entre substantivos, por exemplo, é uma característica da poética contemporânea lusitana, resgatada de ideais antigos de construção poética e que carrega consigo a capacidade de construção cenográfica por vieses mais intuitivos — logo, menos descritivos —, transgredindo o uso convencional da construção da imagem no rap. Assim, o artista mantém o peso ideológico da sua matriz cultural aliada à nova maneira de usar as palavras, de construir o cenário que pretende.

Ao forjar imagens se utilizando da associação espontânea através da construção poética contemporânea, não convencional ao rap, Vinícius Terra força o público a divisar e compor os frames através da união espontânea das imagens situadas pelos substantivos para formalizar, ao final dos versos, um grande quadro geral. Tal associação entre nome e imagem é mais facilmente aplicável quando é sugerida uma ação ao final, como no esquema nome-nome-verbo no verso abaixo:

“Caneta folha imprime”

Assim, a capacidade descritiva de Vinícius já não está mais aliada a uma literalidade global (ao que é vestido a forma de “fazer rap” no sentido habitual) da construção e descrição de cenários e imagens ultrarrealistas; mas, sim, aos significados — próprios e, em consequência, mais subjetivos — imbuídos às palavras (profundas) escritas.

XII

Se as memórias de Húmus e Para Que Fique Escrito se cruzam, em diferentes registros, depois de um “tempo que dura um século” por caminhos tão intrincados e ideológicos quanto os expostos aqui, cabe à memória de ambos os autores fazer jus aos plurais que foram capazes de criar e atingir a partir de sua exposição.

Num fatalismo cíclico, pode-se declarar que o momento de reaver a obra de Raul Brandão não poderia ser menos propício de um ponto de vista que enxergue, tão somente, o consumo e as reações exacerbadas de veículos e leitores. Vale a lembrança de que Raul Brandão nunca foi um autor propício a momento algum. Apenas escreveu.

Vinícius Terra e a Nova Lusofonia não se assemelham a algo propício para o mercado da mesma forma que Raul Brandão não parece ser há mais de cem anos. Porém, é exatamente isso que deve acontecer para que sua memória fique escrita com os significados plurais que devem ser continuados e atribuídos às suas palavras.

Para que fique escrito como registro da memória, quando a vida não parecer mais tão viva e a morte se tornar um estado transitório, senão um brando rito de passagem, a última e, talvez, mais valiosa lição que o compromisso para com a memória e a palavra, que fazem da história instrumento para a união de ambos os autores, esteja sempre às vistas:

“Ouves o grito? Ouve-lo?... – É preciso matar segunda vez os mortos”.