Americanização da Literatura

"O Peso do Pássaro Morto", livro de estreia da Aline Bei, é um fenômeno recente que remete à vida enquanto perda contínua. Os versos que abraçam e entrelaçam os vazios e perdas da protagonista redimensionam os limites de gênero dentro do romance e sua capacidade de também comunicar nas pausas e no silêncio.

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Por Caio Lima

“(...) um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias (...)”.Mario Vargas Llosa

A virada do milênio, além de ter possibilitado nossa terna continuidade neste planeta achatado nos polos (já que o mundo não acabou em 2000), veio carregada de uma nova era para o entretenimento de massas. Há uma profusão de sagas em longas-metragens e séries com intermináveis temporadas fidelizando cada vez mais admiradores e demarcando no mercado marcas criadas para explorar uma complexa rede. E com o passar da primeira década o volume de séries aumentou a cada virada de estação. Antes de acabar a temporada de uma, já estão sendo anunciadas as premières de três ou quatro novas séries que você, como imposição, precisa acompanhar.

Repare bem que todas essas séries/sagas seguem um padrão, uma estilística comercial, bem semelhantes umas às outras. Formam, hoje, a principal rede de entretenimento massivo e, com o advindo do Netflix, isso tem se expandido de forma absurda. O lastro para crescimento num curto período é vertiginoso e as previsões são extremamente otimistas para os entusiastas do mercado. Mas falando em roteiros e tramas, um ponto que é de comum acordo é: quando não são simples adaptações ou superlativos, essas séries/sagas são em parte inspiradas em livros, sejam clássicos ou contemporâneos. A indústria do entretenimento foi capaz de se utilizar do espaço literário e fazer ser consumido um produto eficazmente mastigado e de assimilação instantânea.

LEMBRANDO QUE: a questão aqui é em como a máquina do entretenimento gira, e não contestar a qualidade de obras que para mim são incontestáveis.

Partindo desse pressuposto, existe uma logística reversa, já que tudo (ou quase tudo) nesse mundo é uma via (crucis) de duas mãos. Com a simplificação do meio literário massificado pelos filmes e séries, as pessoas que consomem os livros querem, exigem, necessitam e defendem a ideia de que os livros devem ter semelhante poder de compactação, o mesmo poder “miojístico” de assimilação. Assim, o meio literário cai na mesma roda do entretenimento de massas. A emergente produção de sagas literárias, os textos amplamente descritivos e visuais e tramas roteirizadas (quase cinemáticas) focadas numa estrutura pré-moldada de escrever, garantem o sucesso de um mercado tido como emergente.

Então é gerada uma nova ordem onde a literatura é escrita para o entretenimento audiovisual e o entretenimento audiovisual é criado de forma a ser reproduzido, também, pela via literária. Vendo os autores que mais lucraram em 2015 (Tabela 1) pode-se notar que todos têm seus trabalhos traduzidos em filmes e séries de TV e esses trabalhos se enquadram nas obras que mais arrecadaram nos dois meios. Existe uma tendência que presta mais e mais atenção no estímulo dessa correlação entre os meios de entretenimento para fidelizar e comercializar marcas e doutrinar a distribuição de entretenimento mundial.

Autor

Lucro no Ano de 2015

País de OrigemPrincipais Obras1ºJames PattersonUS$ 89 milhõesEUATrilogia Bruxos e Bruxas; Romances policiais2ºJohn GreenUS$ 26 milhõesEUAA Culpa é das Estrelas; Cidades de Papel3ºVeronica RothUS$ 25 milhõesEUATrilogia DivergenteDanielle SteelUS$ 25 milhõesEUAUm Longo Caminho para Casa; Cinco Dias em Paris5ºJeff KinneyUS$ 23 milhõesEUAO Diário de um Banana6ºJanet EvanovichUS$ 21 milhõesEUASaga Stephanie Plum7ºJ. K. RowlingUS$ 19 milhõesReino UnidoSaga Harry PotterStephen KingUS$ 19 milhõesEUAO Iluminado; It - A Coisa; Sob a Redoma9ºNora RobertsUS$ 18 milhõesEUASérie Mortal; Trilogia O Círculo10ºJohn GrishamUS$ 14 milhõesEUATempo de Matar; O Júri; A Confissão11ºDan BrownUS$ 13 milhõesEUAO Código da Vinci; Inferno; Ponto de ImpactoGillian FlynnUS$ 13 milhõesEUAGarota Exemplar; Lugares EscurosRick RiordanUS$ 13 milhõesEUASérie Percy Jackson; Série de ApoloSuzanne CollinsUS$ 13 milhõesEUATrilogia Jogos Vorazes15ºE. L. JamesUS$ 12 milhõesReino UnidoTrilogia 50 Tons de CinzaGeorge R. R. MartinUS$ 12 milhõesEUASérie As Crônicas de Gelo e Fogo

Tabela 1: Autores que mais arrecadaram em 2015, segundo matéria da Forbes.

Mas o que é consumir literatura? Quais tipos de obras entram no país de forma massiva? O que isso tudo tem a ver com a formação dos novos leitores brasileiros?

Os diversos segmentos de entretenimento emergentes são todos baseados no mercado e nos moldes do entretenimento norte-americano. As portas, hoje, estão escancaradas para qualquer produto que nos entretenha produzido por eles ou nos seus padrões. Isso influencia absurdamente o mercado editorial do país. Fez-se um ciclo em que o consumo de um produto se dá por todas as vias possíveis: filmes, séries, artigos diversos, jogos e, finalmente, os livros.

Com um mercado reduzido ao longo da história, as editoras brasileiras viram nessa indústria emergente de entretenimento a oportunidade de angariar recursos para se estabilizar no mercado (Tabela 2). É difícil culpa-las, afinal, tudo se resume em negócios, em cifras. A responsabilidade do que é lido é de quem lê... É? Não necessariamente.

TítuloAutorNúmero de Exemplares VendidosNacionalidadeEditora1ºGreyE. L. James174.796Reino UnidoIntrínseca2ºSe Eu FicarGayle Forman100.757EUANovo Conceito3ºCidades de PapelJohn Green94.771EUAIntrínseca4ºToda Luz que Não Podemos VerAnthony Doerr71.954EUAIntrínseca5ºPara Onde Ela FoiGayle Forman65.371EUANovo Conceito6ºCinquenta Tons de CinzaE. L. James43.096Reino UnidoIntrínseca7ºA Garota no TremPaula Hawkins42.023ZimbábueRecord8ºSimplesmente AconteceCecelia Ahern40.216IrlandaNovo Conceito9ºCinquenta Tons Mais EscurosE. L. James36.443Reino UnidoIntrínseca10ºComo Eu Era Antes de VocêJojo Moyes34.033Reino UnidoIntrínseca11ºNúmero ZeroUmberto Eco31.878ItáliaRecord12ºA Garota na Teia de AranhaDavid Lagercrantz28.634SuéciaCompanhia das Letras13ºGuerra CivilStuart Moore27.229EUANovo Século14ºCinquenta Tons de LiberdadeE. L. James26.299Reino UnidoIntrínseca15ºSomente SuaSilvia Day19.713EUAParalela16ºAs Espiãs do Dia DKen Follett19.250Reino UnidoArqueiro17ºA Guerra dos TronosGeorge R. R. Martin18.388EUALeYa18ºO Irmão AlemãoChico Buarque17.853BrasilCompanhia das Letras19ºPara Sempre AliceLisa Genova17.033EUANova Fronteira20ºParaíso Perdido - Filhos do Éden Volume DoisEduardo Spohr16.171BrasilVerus

Tabela 2: Os 20 livros de ficção mais vendidos no Brasil em 2015, segundo contagem do Publishnews.

A questão é que estamos nos enganando quando dizemos que há um crescimento “fora da curva” de leitores. Há uma unilateralidade bem evidente no mercado editorial atual, onde o montante de vendas de autores norte-americanos (ou que elaboram suas obras com esse conceito) é clamorosamente maior que as publicações dos próprios autores brasileiros. Não que não existam autores de best-sellers lendários, mas há de se reparar que a grande maioria das obras são provenientes desse modelo “livro-produto” com marcas já consolidadas, best-sellers com uma estratégia de mercado embutida.

Alguns autores trataram de se apoderar desse fanatismo pelo consumo e desse endeusamento que o capital é capaz de proporcionar para escrever suas marcas literárias. Desta forma, fenômenos editoriais mundiais surgiram da noite para o dia, fomentados pela cultura poderosa do entretenimento de massas norte-americano. Fenômenos estes que em menos de uma década tem lançados: uma série de televisão com 15 temporadas garantidas por contrato, uma sequência de filmes, o dia especial da marca (vulgo “título da obra literária de maior reconhecimento do século segundo o The New York Times”) e produtos e mais produtos empanturrando o mercado, de cereais ao enxoval. Vale tudo. São clássicos forjados pela força do mercado. Então o crescimento que existe hoje é de consumidores de certo produto ou marca. Os livros deixaram de ser uma via principal e independente, e se tornaram itens no meio de uma demanda gigantesca de artigos diversos criados especialmente para seguidores fieis.

E esse é o post de inauguração!!! (Fogos [as drogas chegaram] e chuva de papel picado [feita com títulos de eleitor]). Comentem, critiquem e compartilhem, pois criar uma via de debate amplo é a intenção do canal. Alimentem a intriga!