Ana Cristina Cesar - Poética | FLIP 2016

"O Peso do Pássaro Morto", livro de estreia da Aline Bei, é um fenômeno recente que remete à vida enquanto perda contínua. Os versos que abraçam e entrelaçam os vazios e perdas da protagonista redimensionam os limites de gênero dentro do romance e sua capacidade de também comunicar nas pausas e no silêncio.

Por

Por Caio Lima

"E pensoa face fraca do poema/ a metade na páginapartidaMas calo a face duraflor apagada no sonhoEu pensoA dor visível do poema/ a luz préviaDivididaMas calo a superfície negrapânico iminente do nada."

Poética não é apenas uma compilação física elaborada com primor estético de toda a obra da renomada poetisa marginal Ana Cristina César, homenageada da FLIP 2016. Pode parecer efeito de um afeto-relâmpago devido a minha recente experiência, mas Ana C. se materializa para além do imaginário a todo o momento, numa espécie de espectro que insiste em aparecer toda vez que o livro é aberto. Esse espectro funciona como uma espécie de atlas do corpo humano, saca? Indica os músculos que devem ser movidos, as artérias que devem se dilatar e os órgãos que reagem à leitura de cada fragmento escrito. E isso tende a mudar dentro dos contextos que ela aplica dentro de um único escrito. É uma leitura intensa, física.

É impossível tentar compreender qualquer coisa da poesia e dos fragmentos de Ana C. sem saber absolutamente nada sobre a vida dela. Armando de Freitas Filho fez um prefácio sucinto, talvez até demais. Seja em respeito à pessoalidade da sua memória, seja a falta de palavras para tentar justificar sua presença ali ou a dificuldade de externar aspectos da revolução que é Ana C.. Não que exista muita coisa dela circulando por aí, mas é bom dar uma pesquisada.

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Lendo, eu só consegui chegar à conclusão de que essa mulher é fascinante. Por vezes eu leio duas páginas de uma carta que versava sobre vários nadas. É interessante, mas o cunho pessoal e literário é separado e essas cartas e fragmentos tomam o sentido de piadinha interna que seus amigos soltam numa conversa aleatória e você fica com cara de nádegas. Por vezes no sentido de duas linhas reside o universo, amplo e inexplorado, provocando uma viagem guiada por suas palavras. Daí é advindo todo o encantamento que sua poesia causa, pelo menos em mim.

É uma obra que pede releituras por diferentes momentos da vida. Suas formulações são tão pessoais que o sentido de algumas palavras soltas que eu absorvo agora se confunde com o sentido das minhas próprias formulações. É arte e é conversa ao mesmo tempo.

Existem gritos de Ana C. que ela precisa que ouçam e sejam espalhados. Isso não significa sofrimento. São gritos de quem precisa gritar, quaisquer sejam os motivos. Tampouco há a necessidade de que sejam muitos os ouvintes, desde que esses poucos estejam propostos a ouvir.

Impossível não condicionar cada parágrafo desse texto aos verbos ser e existir no tempo presente. A atemporalidade das suas palavras reside na pureza de intenção ao escrevê-las. Pureza em meio ao ar lúgubre. Sob um céu acinzentado e funesto, seus relatos são doses arrebatadoras de si. Leve em conta que cada pessoa é um universo e há uma bela dimensão dos infinitos caminhos que Ana C. me leva a percorrer para entendê-la. Ela não foge. Ela grita, expõe, escancara. Mas seria eu capaz de entender seu universo?

De livro aberto nas mãos, me pego ainda pensando no seu universo e nos seus gritos. As questões sobre universos pessoais são tão paradoxais, que resolvo me ater ao presente. Agora, com o livro fechado, estão ali gritos do meu universo que Ana C. trata de ouvir e registrar, para que quando eu abra sua Poética novamente, ela me grite de volta.