Conversar Literatura

"O Peso do Pássaro Morto", livro de estreia da Aline Bei, é um fenômeno recente que remete à vida enquanto perda contínua. Os versos que abraçam e entrelaçam os vazios e perdas da protagonista redimensionam os limites de gênero dentro do romance e sua capacidade de também comunicar nas pausas e no silêncio.

Por

Por Caio Lima

"A literatura é essencialmente solidão. Escreve-se em solidão, lê-se em solidão e, apesar de tudo, o ato de leitura permite uma comunicação entre dois seres humanos."Paul Auster

Fazemos muita questão de quantificar os livros que lemos por semana, mês e/ou ano. As pesquisas apontam que o brasileiro, em média, lê 4,5 livros por ano, um aumento de meio livro por ano referente à pesquisa realizada há quase cinco anos atrás, por exemplo. Levando-se em conta que mais da metade da população brasileira não é de leitores, sabemos que esses 4,5 livros per capita ficam distribuídos entre uma minoria. Mas normalmente essa estatística, para quem lê, é muito visual. Acabamos usando essa quantificação das leituras que fazemos como um recurso para mostrar que somos leitores ávidos, que há uma evolução natural da nossa escalada literária ou para tirar onda com os coleguinhas dos grupos das redes sociais.

Eu não me excluo do fato de ser, também, um pequeno fã de estatísticas e de ter minha tabela montada com os livros que leio durante o ano, um contador de páginas por ano desde 2011 e um contador de páginas por editoras. Estatísticas são muito úteis, sim. Por exemplo, nessa minha tabela (falarei sobre isso com mais calma em outro momento) eu descobri que quase metade de todos os livros que li foram de autores ou norte-americanos ou britânicos. Isso é muita coisa! De literatura brasileira não havia quase nada. Esses dados me deram base para que eu desse uma guinada na busca de descentralizar meus hábitos de leitura.

Eu sempre li muito mais que a média de livros lidos anualmente por brasileiro. Isso é bom, muito bom. Mas esse tipo de estatística não qualifica as leituras realizadas e não comprova que há uma fixação do que foi lido. E a literatura sem esse entendimento, essa compreensão de todo o contexto, não sobrevive. A exposição de pontos de vista diferentes dos meus acerca de algumas obras me fez abrir os olhos para um mundo completamente diferente. Isso só foi possível através de interações que passam longe da interpretação de dados estatísticos. Eu só fui capaz de identificar isso um tanto mais maduro, quando passei a frequentar clubes de livros em redes sociais, feiras, festas, debates e de levar em conta a opinião de alguns críticos não tão formais assim.

A interação pessoal complementa a literatura, bem como qualquer área da arte. A exposição de opiniões, o livre debate e a natural defesa de ideais constroem de forma natural muitos conceitos ou valores que desejamos ver aplicados dentro do nosso cotidiano. E há cada vez menos disso acontecendo atualmente. Existe um conceito que se assemelha à apropriação indébita da literatura. São, em sua grande maioria, grupos que abraçam opiniões consideradas cabíveis com a mesma facilidade e prontidão que repelem opiniões contrárias achando que há algo diferenciado entre os leitores de certo tipo de obra literária e os não-leitores destas. Vemos isso com muita frequência entre fãs de certa saga famosa versus fãs de outra saga famosa (isso já foi explicado aqui em posts anteriores). Mas é crescente, e preocupante, o distanciamento entre os leitores de clássicos, cânones e hipsters literários para o resto dos leitores, principalmente dos novos leitores.

“O declínio da literatura indica o declínio de uma nação.”

Goethe

A literatura bem feita não tem o objetivo de elitizar e construir uma redoma intelectual aos que são capazes de alcança-la (todos somos, afinal). É um meio de expor ideias, conceitos e arte e qualquer autor se utiliza da literatura para que isso chegue ao maior número possível de pessoas. Portanto, a literatura (e a arte em geral) carrega consigo a tarefa de estimular interações sociais. Os que são capazes de ler Victor Hugo devem despertar às pessoas o interesse em ler Victor Hugo, devem debater sobre Victor Hugo, devem conversar sobre Victor Hugo. Quem lê Victor Hugo pode ter dificuldades ao pegar James Joyce como próximo desafio, mas isso não implica em dois polos diferentes que são obrigados a conviver. Quem leu James Joyce também tem essa função de ajudar quem pode sentir dificuldades na sua forma reconhecidamente excêntrica de escrever e expor conceitos. Não existe o maior, o melhor, o mais. Existe o debate, a troca de ideias e o engrandecimento cultural e social gerados por conversarmos literatura.

Ninguém tem o direito de menosprezar o amigo que lê youtubers, os novos best-sellers ou livros eróticos. Existe um acesso muito facilitado a essa literatura e, repito, são portas de entrada para o meio literário a serem consideradas. O fato é que não podemos só navegar onde é mais fácil. E isso passa em como uma literatura mais elaborada é apresentada ao leitor, seja de primeira viagem ou não. Nisso estão envolvidos a família, a escola, a sociedade de uma maneira geral e os próprios meios de comunicação. Acredito que canais livres que mesmo de forma amadora (olha nóix aqui) exponham opiniões e incitem o debate livre, são profundos agentes de mudança. Tomar coragem e abrir um espaço para esse tipo de debate talvez seja uma forma de incentivar pessoas de forma efetiva a terem o hábito de conversar literatura, e não apenas quantificar livros. E adquirirmos a noção que: vergonha maior é achar que dispõe de todo o conhecimento e que não tem a obrigação, ou até mesmo necessidade, de passa-lo adiante. Subir num pedestal por gostar de livros mais complicados, de difícil acesso, não ajuda em absolutamente nada. As pessoas só saberão a diferença entre as literaturas da Kéfera e de Machado de Assis se ambos forem apresentados de forma acessível e isso depende bastante do que foi tratado nesses parágrafos aí de cima.

Inclusive, sendo profundo entusiasta de leituras coletivas e debates abertos, estou preparando um projeto de leitura coletiva. Dependendo da galera que quiser participar, tocamos o barco pra frente. Portanto, me mandem mensagens com sugestões e quanto à aceitação da ideia.

Lembrando que: os dois primeiros artigos não retratam a qualidade das obras que são lançadas, mas sim um modelo de mercado cada vez mais evidente. Óbvio que há um investimento visando à estratégia de mercado em detrimento da qualidade literária, o que culmina no surgimento de muita coisa dispensável. Mas nesse meio também se encaixam caras como Tolkien, George R. R. Martin, Stephen King e outros que eu curto bastante e tem uma extensa linha dos mais diversos artigos lançados por aí.

Vamos conversar mais literatura, galera!