Descolonizar a palavra lusófona

A Nova Lusofonia de Vinícius Terra é um movimento em busca de comunhão através da palavra em língua portuguesa e da cultura hip hop. O single "Nasce um novo dia..." é o ponto de partida do seu novo disco, Pra Lvsofonia {...}; da sua trajetória, unindo MCs do Rio de Janeiro e do Porto; e da ideia de que todos devem batalhar pela memória comum.

Por
Caio Lima

Metaempirismo

Recorrer à palavra como vetor unitário da memória pode parecer solução óbvia e paliativa a princípio, tendo em vista o duplo: a era da afirmação do indivíduo é a mesma em que a verdade é relativizada.

Verdades derretem a cada segundo, a ponto de parecer jamais terem existido; é sintomática a proliferação de sofismas aos quatro cantos, em uso sistêmico, no que pode redefinira ruptura do indivíduo com o tempo presente em absoluto.

Com o avanço das tecnologias de veiculação e massificação da informação, um novo corpo tecnocrata impessoal ganha maior espaço e relevância, negando continuamente o que outrora fora reconhecido, mesmo sem embasamento científico.

O contínuo descrédito no método científico é a base dos que relativizam noções básicas da construção do conhecimento comum à sociedade, criando derivações interpretativas inconsequentes da memória, travestidas como “verdadeiras verdades”.

Às“verdadeiras verdades” chamaremos de metaempirismo, definido por: memória antes chancelada pela comunidade científica, e que agora se torna refutável a partir de crenças e metaexperiências de apenas um indivíduo.

Este indivíduo conta com ferramental tecnológico suficiente para ressignificar a memória pela palavra, disseminando a nova verdade de forma instantânea.

Se as metaexperiências e o imaginário do receptor, em foro íntimo, são compatíveis, o próprio receptor produz e reproduz a nova memória, que deixa de ser universal e passa a ser unitária e indivisível.

Talvez, a ressignificação individual da memória seja o principal motivo da ascensão de governos eleitos por via democrática, mas que seguem vieses totalitários e exclusivistas como bases diretivas (contraditório, não?).

A grande fissura da democracia parece estar na capacidade individual de moldar o sentido do que é ou não democrático, sem que a memória coletiva consiga ser mais rápida que as conclusões de foro íntimo, provocadas ou não.

A palavra parece estar no meio de um processo de perda da memória.

Palavra política

A estratégia rudimentar, quase imemorial, é praxe de sistemas de controle exclusivistas,porém esta já não mais atua em favor de um líder fixo, de um representante máximo da cadeia opressiva sistêmica.

O apagamento e a anulação de qualquer memória coletiva, que dê a noção de unidade a um grupo,qual seja ele, parece ser o caminho dessa nova ordem em que líderes imponentes, excursionistas e virtuosos não são fundamentais.

O discurso metaempírico se vale da imagem ascendente de líderes ignorados pelos veículos tradicionais e sedentos por reconhecimento, com ideais de dominação e poder arcaicos, que remetem aos tempos coloniais.

Fomentar seguidores passivos é menos arriscado que depositar um sistema de poder inteiro num indivíduo imbuído de muitas responsabilidades, aliás.

As representações e poderes republicanos controlam ao mesmo tempo em que sofrem controle, um princípio democrático básico.

Apesar de a estrutura exigir representatividade e delegar funções a poderes específicos, o líder máximo, no caso o presidente, não é a exata personificação do ideário baseado no conjunto de crenças da maioria da parcela votante.

Os recentes fenômenos eleitorais denotam que figuras caricatas e ignotas assumiram o cargo eletivo mais alto do Estado com discursos que atacam, basicamente, a formação da memória pelo método científico.

Todo o aparelhamento da corrida eleitoral de cada um foi baseado na ressignificação de palavras, ditas e desditas para alcançar um resultado: a crença individual tem valor igual ou maior que a memória coletiva, podendo substituí-la.

Sem carreira sólida no meio político, a nova classe de governantes se revela mera emissora, agindo como verdadeiros alto-falantes a serviço de uma mensagem maior que a persona,de origem não rastreável, mas proativa.

Desde que a comunidade se reconheça pela verdade que é capaz de produzir, a imagem do Grande Irmão, de Orwell, e a servidão pelo prazer, de Huxley, por exemplo, são conceitos ultrapassados e, portanto, irrelevantes.

Mas, talvez, a ideia da Novafala contida no livro 1984, de Orwell seja um caminho a ser observado.

Construção do discurso

A condição para as novas formas de subjugação social está na própria construção do discurso, trazendo à tona o imaginário de foro íntimo como verdade absoluta.

O reducionismo,a generalização e o apagamento da palavra como vetor unitário da memória são as principais ferramentas para a deturpação — e posterior interrupção — do processo de construção da sociedade.

Depois de veiculada, a ideia pela palavra é incapaz de ser desmentida, pois o século XXI é o século da multiplicidade da verdade.

Para qualquer cátedra, desta forma, o descrédito no método científico não atua como perda, mas como expropriação.

A mínima interrupção do processo de pesquisa toma forma de saque; e toda forma de desabono ao método científico é maneira de colonizar a memória.

Pode não ser natural dar aos estudos da língua o tratamento de ciência, uma falha vital para o entendimento da sociedade enquanto comunidade que não partilha apenas o mesmo idioma, mas que é oriunda de uma memória compartilhada.

A palavra,tida aqui como ciência, é de suma importância para contextualizar e reunir em torno de si o conjunto de experiências possíveis e passíveis ao homem.

O signo é,antes de tudo, aglutinador e fiscal da memória.

Aglutinar está inserido no cerne da palavra memória e está acima de qualquer desenvolvimento supratemporal do homem, mesmo em épocas de individuação, ao unir em solução equitativa as dimensões do homem e da comunidade da qual faz parte.

Todo indivíduo possui memória e toda ela possui sentido comum na relação tempo-espaço.

A função da palavra como memória, portanto, é a de transcender toda suspeita ou relativização do passado, tornando-o homogêneo, tangível e inteligível a todo e qualquer um.

Para tanto,comunidades afins devem estabelecer conexões e manterem-se ativas ao longo do contínuo processo de significação da memória coletiva, universal.

Colonização da palavra

A relação dicotômica entre os diferentes processos de formação social; a história entre nações colonizadoras e colonizadas, símbolos mais antigos e próximos do opressor e do oprimido, é envolta de máculas ainda muito arraigadas.

O que evidencia o histórico político e social tacanho e sectário.

As nações colonizadas ainda sentem o peso do cetro colonizador e replicam em suas relações estruturais mais básicas traços da soberania e dominância passados,mesmo em países independentes há um século ou mais, a exemplo do Brasil.

Os traços coloniais são ainda aparentes no imaginário popular e nas práticas enraizadas do lado colonizador da moeda, é evidente.

Mesmo estando no século XXI, o colonizador permanece inconstante ao expor os diversos crimes cometidos nos processos de colonização, amenizando as atrocidades cometidas comum mea culpa.

Com frases como “não fomos os colonizadores mais cruéis”; ou numa célere amortização da dívida histórica cedendo algum espaço e oportunidades para imigrantes das ex-colônias.

Ou simplesmente reafirmando sua hegemonia cultural, econômica e bélica ante o colonizado.

Palavra em português

Entre Portugal e as ex-colônias lusófonas — Angola,Brasil, Cabo Verde, Galiza, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, Goa, Damão e Diu —, a palavra em língua portuguesa passa a ter função de memória atuante.

É bom relembrar a colonização portuguesa comum em todos os países colonizados, que teve como principais pilares a expropriação indiscriminada de insumos e o tráfico de escravos,atividades que salvaram a economia da coroa por séculos a fio.

O saque, a escravidão e o comércio indiscriminado legaram às colônias o estado de servidão permanente, além do apagamento contínuo das suas raízes em prol da cultura hegemônica do colonizador até a sumidade da língua falada.

Presente nos quatro cantos do mundo, a língua portuguesa deve agora ser portadora do lento processo de reconstrução da identidade das ex-colônias e da construção de uma nova ponte não hegemônica entre a comunidade lusófona.

É impossível pensar na formação da memória coletiva sem que o elemento colonizador, portanto o elemento impositivo da língua comum, não reconheça a relação de dominação para com as ex-colônias e se desfaça de sua postura hegemônica.

Pedir unidade à memória lusófona é também descolonizar a Portugal protagonista para permitira reconstrução da memória através do único elo que, apesar de imposto, ainda pode nos servir como aglutinador: a palavra através da Flor do Lácio.

Nova Lusofonia

Entendera língua compartilhada como elemento de construção da memória lusófona é estimular entre as ex-colônias portuguesas, num primeiro plano, a partilha da memória comum.

A palavra é aglutinadora.

Tal construção permite intervenções mútuas e a abertura do diálogo franco ao denotar disfunções conjuntas e soluções possíveis dentro dos diversos ambientes lusófonos e das possibilidades em cada espaço.

Um ponto primário para estabelecer o universo lusófono é compreendê-lo em conjunto à ideia de descolonização das ex-colônias, todas independentes, mas com graves fissuras sociais herdadas.

As capacidades de reconhecer-se no próximo, de dar amplitude e diversidade aos discursos e de chegar ao outro com aquilo que lhe é de constituição própria, são fatores de suma importância para a reconstrução da unidade cultural.

Não à toa a Nova Lusofonia, corrente idealizada por Vinícius Terra, tem como base primária o reconhecimento mútuo entre culturas e a troca espontânea para o fortalecimento da memória coletiva através da cultura hip hop.

Dentro da carreira, há muito voltada para a construção do ideal da Nova Lusofonia, persiste a vontade austera e a capacidade de intercambiar questões comuns ao ambiente lusófono, não importando a origem.

A odisseia de Vinícius Terra com o ideal lusófono começa em Portugal e desce para o Equador, tendo em vista o potencial equitativo da língua em comunhão para a reconstrução e a afirmação da memória.

Em Guetos de Guiné-Bissau, música lançada em 2016, por exemplo, coexiste a alternância de referenciais em que a língua lusófona se multiplica em importância para traçar um quadro comum, uma memória montada pela palavra.

Herança

Por maisque a língua comum seja herança do colonizador, a subversão consiste em utilizá-la como elemento de identificação entre colonizados e a construção de discursos e perspectivas possíveis.

A conexão imediata estabelecida em todo o ambiente lusófono só é possível pela diversidade de representações inteligíveis pela língua e, por isso, automaticamente cambiantes entre si.

Sem a conexão pela língua comum, os fios trançados entre as culturas seriam tênues o bastante para não estabelecer a ideia de unidade e o ambiente de troca seria pouco verossímil.

Voltando um pouco mais no tempo, em Versos que atravessam o Atlântico,música de 2013, o grito da diáspora pela via lusófona ascende.

Há urgência por parte do ideal lusófono em ressignificar a memória comum, trocando as bases colonialistas pela pluralidade própria de cada cultura envolvida, reestruturadas pelo intercâmbio de experiências e motivações que compartilham.

A palavra exerce função de soberania, além do registro memorial.

O pertencimento como unidade deve-se ao tratamento da memória como conhecimento e poder, como bem define Allen Halloween, que compõe uma das partes da música,nos versos:

“Mas antes da paz vem ajustiça/Vem uma mesa redonda cheia de comida/Onde os filhos dos escravos e dos donos se sentem em harmonia/Comem e bebem em alegria, até nascer um novo dia”

Está estabelecido, portanto, que a diáspora possível dentro da ideia de Nova Lusofonia é dada com base na principal herança do colonizador: a língua portuguesa.

Desta forma, ainda sobre os versos de Allen Halloween, o papel de quem foi imperativo não é tão somente dar conta da subversão do idioma comum pela contínua construção de pontes entre colonizados através da palavra, musicada ou não.

Também o colonizador deve agir de maneira afirmativa, incentivando novos discursos e,mais importante, se desfazendo da postura hegemônica em definitivo para querer fazer parte do processo de reconstrução da memória comum.

Descolonização

Qualquer movimento que remeta à reminiscência da supremacia europeia ante as demais nações da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) não condiz com o discurso da Nova Lusofonia de Vinícius Terra.

Sabe-seque a mudança de mentalidade e o processo de descolonização são continuamente colocados à prova, o tempo presente é uma mostra disso.

A exegese e afirmação da diversidade lusófona por sobre a aura colonizadora se vale da superação de sérios problemas estruturais causados pela coroa e seu projeto expansionista de poder, até que se atinja a comunhão entre os povos.

Da afirmação do ideal da Nova Lusofonia durante a última década, pode-se identificar o histórico da criação de alternativas múltiplas que buscam colocarem contato todas essas culturas em posição de diálogo franco, aberto.

Festivais, oficinas, concursos e workshops foram realizados com a intenção de gerar intercâmbio cultural e difundir a ideia da comunidade lusófona presente.

Porém, ainda que fosse possível enxergar o ideal lusófono tangível, a lacuna processual do novo dia em que ”os filhos dos escravos e dos donos se sentem em harmonia” precisava passar por sua via crucis, sua travessia definitiva.

Nasce um novo dia...

Em Nasce um novo dia..., lançada no primeiro trimestre de 2019, Vinícius Terra comunga dois territórios com especificidades difusas, Rio de Janeiro e Porto, para unir duas das suas vivências e potencializar discursos que buscam a memória afim.

Como ideia,também, de transcender à esfera da descolonização fazendo de Portugal, matriz da língua, correntista majoritária da ideia comunitária lusófona.

É perceptível a diferença dos referenciais trazidos pelos rappers cariocas, Akira Presidente e Gustavo CHS, para os discursos promulgados pelos rappers do Porto, Maze e Keso.

O discurso dos cariocas corta o panorama da cidade caótica e violenta sem perder de vista o desejo, que ainda vive de uma possibilidade elástica de ser realizado.

A plenitude e a comunhão dos seus, tendo em vista o árduo caminho a ser trilhado, parece, mais do que nunca, tangível; porém ainda é uma estrutura potencial distante em que se deposita tudo, mas sem garantia de retorno.

A palavra,ao mesmo tempo em que deseja e emancipa, também se choca com a realidade e as necessidades e problemas triviais. Garantir que tais problemas façam parte da memória coletiva está para além do reconhecimento formal.

Deve-se ter em vista, sempre, que sem a memória não há possibilidade do presente existir, muito menos a projeção do futuro.

Parte da travessia de Vinícius Terra é, portanto, manter viva a memória ao mesmo tempo em que novas perspectivas devem se retroalimentar até que sejam realizadas em plenitude.

A participação dos portugueses na música e o processo de descolonização são forças-motrizes capazes de tratar a palavra como ferramenta de plenitude e liberdade, mas agora para todo o ambiente lusófono.

O encantamento com a vida simples e austera do campo; ou com a expressão das maiores liberdades pela arte; ou a capacidade única da palavra em unir e enlaçar diferentes culturas num mesmo ambiente, sem limitações ou forças dominantes.

Todos esses ideais são realizações plenas num ambiente, mas precisam ser comuns a todo o ambiente lusófono.

Entregara ideia de que há, sim, possibilidade da comunidade compartilhar tal estado de “bem-estar” é atravessar séculos de dominação e aceitar que todo o passado, quando compartilhado, serve para a projeção de um futuro melhor.

E qualquer futuro que se diga melhor está atrelado ao reconhecimento comum das diferentes formas de expressar a própria cultura e consequentes capacidades de enlaçar soluções para os que se reconheçam nela.

Se essas soluções podem atravessar os quatro cantos do mundo, por que não? A língua está aí para ser falada mesmo. E ai de quem, em pleno século XXI, se sinta capaz de alegar poder unitário ou hegemônico sobre ela.

E só há compreensão de que a melhor solução está na comunhão, em que as partes se reconheçam e construam a própria memória, se o colonizador for descolonizado.

Premissa de Nasce um novo dia..., talvez seja esse o exemplo mais recente de que há de se ter cuidado para com qualquer memória unitária, que ressignifique e subverta a memória comum.

Para que isso não aconteça, deve-se tomar a palavra como objeto do método científico e de sua prática, registrando a memória e aglutinando seus usuários sob o mesmo teto, sob as mesmas perspectivas.

Impossível retroagir no tempo e desfazer processos cruéis de colonização, mas é possível vislumbrar novos quadros; e a língua portuguesa deve, agora, dar liberdade à palavra para que construa uma nova memória e faça nascer um novo dia.