Fazer nada é impossível

Nicanor Parra, o chileno criador da antipoesia, teve sua primeira antologia publicada recentemente no volume "Só para maiores de 100 anos", lançado pela Editora 34.

Por
Caio Lima

Seria pertinente (re)citar inúmeros poemas fora de ordem e tratá-los como suprassumo da existência sensorial de uma vida maior que a vida de carne e osso; que espante, extirpe, bote para fora, que chispe daqui e deixe sem eira-nem-beira a merda de vida breve e malograda que levamos todos como bons filhos sem pais num mundo frio, cruel e inadmissivelmente viciante.

Seria pertinente, também, transformar o mundo numa ode ao fracasso e pedir a remissão dos pecados pela graça de reconhecer a falibilidade do poder dos deuses de quaisquer religiões formadas e, ainda assim, reconhecer e tomar à força a fé misericordiosa e agarrá-la como se nada fosse capaz de sustentar tamanhos pesos, culpas e mágoas imputadas a um corpo tão diminuto e tão breve e tão flácido.

Seria ainda mais pertinente que dentro da poesia, a liberdade fosse acompanhada da justiça que transforma todos os homens em iguais sob os holofotes das palavras, únicas deusas capazes de captar o frisson da loucura que é a gênese da vida como ela passou a ser assim que racionalizada em sistemas, modelos políticos e econômicos de transformação social e seres belicosos industrialmente malfadados, porém cheios de razão.

Seria pertinente que nada tocasse o nada, que o nada ficasse lá quietinho e, como quem não quer nada, nada fizesse com a elucubração de rimas sucessivas e ritmadas que soam bem aos ouvidos, mas que nada fazem ao sentido, à miséria da condição acadêmica e ao devir natural do ser humano, que é morrer deixando dúvidas irrespondíveis e irresponsáveis para gerações próximas que jamais se aproximarão das respostas, mas que com certeza farão o impossível para multiplicaras dúvidas.

Seria pertinente que ninguém se movesse em desastres ou registrasse desastres, já que tudo consta como algo potencialmente capaz de ferir, machucar, matar e piorar situações de extremo teor de violência psicológica, psicossomática ou ortopédica;e aí os danos podem ser irrecuperáveis, sem que jamais o ser movente seja desculpado mesmo que tenha se movido com a habitual boa vontade humana que a todos deveria contemplar, mesmo não havendo conveniência ou conivência ou anuência para com a tragédia.

Seria ultrapertinente desfazer malfeitos históricos; sabe-se lá como, mas ninguém foi feito para saber como fazer e sim para aparecer com o feito: está aí toda a graça da vida: a vida não tem graça nenhuma; embora eu talvez aprove, apenas para saber o sabor de alguma coisa que gera repulsa, mas que não vale repulsar porque gera ojeriza também e tudo cai num paradoxo infalível com as premissas: “tudo é possível” e “nada é impossível”: fazer nada é impossível.

Seria pertinente que os amores se lembrassem das origens do amor antes de declarar afastamento, contrariedade ou interrupção das ações, porque não são feitos os amores de elemento volátil suficiente para que queime todo e só fiquem as cinzas; amores únicos jamais serão perpétuos, porque amor é um todo possível que está diametralmente distante do nada, o que comprova que não é loucura nenhuma amar: loucura é falar de amor sendo incompleto.

Seria pertinente lembrar que as matrizes legais e constitucionais são a pura lembrança daquilo que nos remete à garantia perene de que jamais teremos envolvidos socialmente com naturalidade aquilo que teve de ser determinado,chancelado e enviesado por lei, decreto ou medida provisória; sob a mácula da margem, que se sente incompleta e dissidente da própria pátria; pátria que prefere sustentar a herança da violência, da submissão, da escravidão, dos panos quentes e do silêncio por séculos a fio que hão de fazer retroceder a pátria mesma, porque o passado é sempre possível; podemos dizer que o passado,agora, é tudo.

Seria pertinente que poetas calassem ante a qualquer enfermidade erma da alma e constituíssem um corpo para além do torpor das alucinações de uma vida ilimitada, ideal, perfeita, espectral, que jamais será possível senão pela morte advinda do sonho e da vontade libertadora de fazer-se morto para viver como vivo, e não como autômato; para isso é preciso falar a mesma língua,realizar os mesmos prazeres, dividir as mesmas dúvidas com os que estão aqui agora, que se fazem parte do todo presente e gélido; tornar o presente algo quente e admissível não é fazê-lo tolerável; dialogar e fazer sentir seriam os ideais primevos de alguma poesia que não essa esparramada.

Seria pertinente cobrir palavras com novos significados só para que pesquisadores e linguistas as descobrissem em pontos de inflexão em que o passado etimológico nada mais vale que o nada; a impossibilidade de consultar o passado para replicar variáveis que conectam a palavra através dos tempos jaz perante a inventividade humana replicante e sincera quando o ambiente empírico basilar da ciência para fazer da palavra a quebra da memória, ultrapassando-a; fazemos,sem saber, a mesma coisa com os limites, que nada são e devem permanecer ignorados.

Seria pertinente que toda e qualquer ideia não persuadisse e angariasse adeptos para ser tida séria; falácias como as ideias que não podem morrer e a contínua romantização do sofrimento, são aglutinadores rasos; qualquer ideia deve ser capaz de ser autossustentável e regida por uma única pessoa; escrita por uma única mão, mesmo mambembe, lesionada pelo árduo trabalho e refém da intenção do fazer realidade uma condição imaginada, causando dor, espanto e excitação entendíveis apenas pela solidão da varanda da pequena casa que abriga o mundo eo mar; a ideia de mar próprio é trabalhada pelas mãos trêmulas: esse é inesgotável.

Seria pertinente que meus antigos relacionamentos me assombrassem mais do que assombram,mas todos se assemelham aos antigos amores que são totais e acabam por me lembrar de que há completude onde menos se espera, no que poderia ser considerado um total desastre; some a tal prazer ou revelação à anedota da vida, que transformada, graceja e aprisiona naquilo que pode ser considerado um vício de viver, um vício de lembrar ou apenas um vício, pura e simplesmente.

Seria mais do que pertinente ver meus dias encerrados como a comprovação de que fiz da vida exatamente o que deveria ter feito; nada mais, nada menos; isso porque fazer oque deve ser feito não implica necessariamente num modelo e, sim, na emancipação de qualquer modelo possível que faça crer a liberdade vigiada como a plenitude do que deve ser considerado correto, sublime, indizível e o ponto de inflexão daquilo que ousei ressignificar durante a breve vida de merda.

Não seria tão pertinente assim lembrar os dias como se fossem dias enormes, passados pelo alarido sinistro dos madrigais cantados pelos insetos à noite, contados por não haver nada melhor com o que se ocupar que o ócio matemático; os dias passam como infinidades cósmicas aptas a sugarem a alma através do anseio por quaisquer lembranças sem brilho, afastadas e desconexas do todo que deveria ser um e que não consegue ser meio.

Seria,portanto, pertinente beijar a morte e pedi-la “venha”, assim, de mansinho como as folhas que caem com a brisa contínua em pequenas voltas e ondulações e circunvoluções incertas; e o ócio, que me permite acompanhar os vários trajetos inusitados, a escrever o mais belo epitáfio de todos os tempos, feito como que encomendado: “aqui jaz a vida, que passa a significar nada e a batizo como morte, para a qual este acaba de se transportar como um todo em forma de antimatéria, antissistema e antipoesia”.