John Steinbeck - A Pérola

"O Peso do Pássaro Morto", livro de estreia da Aline Bei, é um fenômeno recente que remete à vida enquanto perda contínua. Os versos que abraçam e entrelaçam os vazios e perdas da protagonista redimensionam os limites de gênero dentro do romance e sua capacidade de também comunicar nas pausas e no silêncio.

Por

Por Caio Lima

Corrupção - substantivo feminino

  1. deterioração, decomposição física de algo; putrefação.
  2. modificação, adulteração das características originais de algo.
  3. fig. depravação de hábitos, costumes etc.; devassidão.
  4. ato ou efeito de subornar uma ou mais pessoas em causa própria ou alheia, ger. com oferecimento de dinheiro; suborno.
  5. uso de meios ilegais para apropriar-se de informações privilegiadas, em benefício próprio.

Corrupção. Kino era pobre de tudo, menos de espírito. Um grande homem, com milhares de valores e mantenedor, à duras penas, de sua pequena família formada por esposa e filho recém-nascido. Seu filho é picado por um escorpião. Apesar de a mãe ter sugado o veneno, ambos os pais acham melhor levar o pequeno até o único médico da cidade. O médico, sabendo da condição de extrema pobreza do casal, se recusa a atendê-los. Kino pega sua canoa toda remendada em busca de pérolas perfeitas. A única forma de arrumar dinheiro fácil. Ao mergulhar, ele se depara com uma ostra gigantesca e de dentro dessa ostra, um brilho sem igual. Ao voltar para a aldeia, ali está a Pérola do Mundo. A maior pérola que jamais vira. A solução de seus problemas.

Corrupção. Seria impossível esconder de toda aldeia aquela preciosidade. Rapidamente a cidade toda já sabia também. Kino era o novo rico. Kino sabia o que havia achado. Rapidamente fazia planos. Queria comprar roupas boas, diversas outras coisas e um rifle. Seu filho já estava se recuperando com os unguentos ancestrais que seu povo praticava quando ainda eram livres. Ao olhar para o pequeno, transformou sua cria num revolucionário. Seu filho iria estudar e revolucionar as condições sociais daquela aldeia. O dinheiro que A Pérola do Mundo traria seria investido em seu herdeiro. Uma crise de consciência. Ou não.

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Corrupção. Kino não chegou perto do valor que achava justo ao tentar vender a pérola. Ali habitava um monopólio de um único comprador real, que contratava falsos compradores para fingir uma concorrência. Sua revolta era gigante. Ele sabia quão valiosa era A Pérola do Mundo. Resolveu ir embora. Mas antes de ir, sofreu um ataque. Quase perdeu a pérola, sua esposa a recuperou. Mas perdeu sua pobre casa, queimada sem dó. Seu barco estava furado e perdeu a cabeça. Acabou matando um dos salteadores. Precisava fugir. Tornara-se assassino.

Corrupção. Junto com sua esposa e filho, seguiu numa fuga alucinante rumo à outra cidade. Viram-se perseguidos por três homens. Especialistas na arte da caça. Mas sua sobrevivência e de sua família, e a preservação da pérola falavam mais alto. Conseguiram vaguear até uma caverna com visão ampla. Mas seus perseguidores eram bons. Só encontrou uma solução: matar novamente, os três, envolto na escuridão da noite. Ele o faz, mas isso custa sua família. Seu projeto de futuro. A Pérola do Mundo se torna cinza e opaca, seu valor se esvai e é devolvida para o mar.

Corrupção. Ao longo dessas menos de 120 páginas, é impossível não pensar e repensar sobre como injetamos esperança em possibilidades que corrompem algumas virtudes que pensávamos serem inatas. Subornamos, inclusive, nossas boas intenções. Como somos corruptos e levianos! Somos capazes de inverter valores quando nos convencemos que “praticamos o bem” ou que tudo é “por um objetivo maior”. Somos nossos maiores sabotadores e é uma pena que, na grande maioria das vezes, só percebamos os enganos após danos irreversíveis.