Mito (Parte 4/7) - Conto "Gigantes"

"O Peso do Pássaro Morto", livro de estreia da Aline Bei, é um fenômeno recente que remete à vida enquanto perda contínua. Os versos que abraçam e entrelaçam os vazios e perdas da protagonista redimensionam os limites de gênero dentro do romance e sua capacidade de também comunicar nas pausas e no silêncio.

Por
Caio Lima

Não creio que seja possível o homem se desfazer de todos os mitos que cria. Não basta descrer do mito, isso é relativamente fácil. Inclusive, essa coisa de mito possui um duplo sentido que, para o momento, merece atenção máxima. Até porque falo aqui de arrancar a influência do mito na vida. De escapar da capacidade de crer em tudo o que vê, inclusive no poder de descrer e tornar-se a nova e maravilhosa forma de esclarecimento acerca da vida. Por isso falei que o eremita Zaratustra seria valioso nessa conversa, existe um viés mitológico em torno da figura quase sacra do niilismo e da razão como contrassenso. Existe, também, uma relação próxima entre crença e aprendizado. Não é proporcional, tampouco de simples entendimento, mas a relação existe e atua com força intensa sobre aquilo que somos — ou sobre tudo aquilo que acreditamos ser em potencial.

Sempre ouvi da minha mãe (e acredito que todos já ouviram) a frase: “estuda, meu filho, porque a única coisa que não podem roubar de você é o que você aprende”. É meio impactante crescer ouvindo que podem te roubar tudo e ver a literalidade da afirmação posta em prática no cotidiano. Por sorte ou mero acaso, nunca rolou com a gente lá em casa. As frases ignoradas por você pelo cansaço em ouvi-las repetidas vezes, lembra-se delas? Então, são as que voltam a causar medo em situações assim; e o medo torna qualquer fala verossímil demais. É um dos princípios do surgimento do mito, por exemplo, cheio de clichês como forma e como aplicação da “ordem”; e como explicação academicista e/ou midiática. É, também, uma das poucas coisas da vida que podem ser afirmadas com o mínimo de convicção: o clichê não existe à toa e se alimenta, meio (porque é relativo, né? (convicções são cárceres, né?)) que única e exclusivamente, da relação íntima do fato em estado crítico com o medo anacrônico da existência do fato. Voltando às nossas mães, a primeira coisa — coisa, coisa, coisa — que se aprende em vida com o mínimo de consciência é que devemos respeitar e acreditar na figura da mãe, como se nela fosse depositada toda a fé em algo absolutamente confiável e sagrado, um escudo contra o mundo vil. Então, naturalmente, não se põe em xeque os clichês ditos pela mãe, como essa frase que me persegue até hoje e eu jamais ousarei desacreditá-la de qualquer maneira — até porque é um fato crítico e eu tenho um medo anacrônico danado de que me roubem tudo, que é o que eu aprendi porque não tenho posses (e a perspectiva é a de continuar não tendo).

Depois dela, os únicos a repetirem essa frase com alguma veemência e credibilidade foram os livros que, por pura sorte ou mero acaso, li durante momentos cruciais da minha curta existência. E o dito, quando replicado em documentos históricos, viajantes do tempo como os livros são, torna ainda maior a crença em cada palavra da mãe.

Imagine comigo: se eu não sou capaz de retirar a influência e a importância de uma frase clichê (dita por minha mãe) da minha forma de pensar e viver; se eu não sou capaz de descrer e desvincular da imagem da mãe, como figura construída por milhares de imagens produzidas por recortes histórico-sociais, o vínculo uno e indivisível entre sabedoria e crença; quem sou eu, afinal, para inferir a alguém qualquer espécie de luz ou conhecimento ou sabedoria ou o que quer que seja nesse caralho? É uma pergunta capciosa e creio que tenha levado muitos à loucura, inclusive ao próprio Nietzsche e seus aspectos filosóficos sobre a liberdade sectária do super-homem Zaratustra, muito parecido com o fenômeno do Platão e a caverna, inclusive. Deixemos as restrições de pensamento para os outros textos, sim? Aqui é necessário pensar a liberdade, a memória, a crença, a sabedoria, a morte e a vida sob alguma luz que não a minha luz, porque eu tenho andado meio opaco, em meia-fase, quase apagado.

Se eu não sou aquele a quem a história se curva como nova forma suprema do saber, eu não deveria dar pitaco em absolutamente nada e muito menos ser visto como esperança de alguma coisa – mais coisa na conversa. Porém, apesar de me reconhecer como forma imperfeita, vulnerável e tendenciosa a toda e qualquer idiossincrasia da cultura a que estamos, sem exceção, assoberbados num processo de afogamento quase inevitável, eu me vejo um pouco com essa responsabilidade sobre os ombros. E algo aqui é premente para que criemos um laço instantâneo: a mãe, Abebe.

Desde quando sua mãe ousou dizer que você é diferente, minha mãe me disse que eu me faria diferente. Martelar um dito ou uma certeza, afinal, influi em quais diferenças na construção de ambos? Acho que nenhuma. Volto à conversa sobre como construir narrativas e os cruzamentos para aquilo que estamos continuamente a exercitar como nossa memória. Não precisa fazer sentido, tampouco ter função moral e uma estética aprofundada, essa parafernália toda a gente aprende com a prática. A construção do fio narrativo que nos conduz ao espaço dessa narrativa, desse texto que é, sim, um fato crítico, é o resultado do ditado da minha mãe e da certeza da sua ao dizerem que seríamos diferentes, Abebe. Acreditamos que somos até o surto de consciência que é a consumação dessa narrativa. Somos produtos dos clichês, meu chapa. Aceite o fato! Mais normal impossível! Doce ironia, não acha?

Nascer, crescer e crer que é possível ser e fazer tudo diferente no mundo cão em que vivemos, mas no fim do dia nós somos, sem qualquer candura nas palavras, frutos dos clichês reproduzidos pela principal figura que nos prende ao estado de crença absoluta: a mãe, Abebe.

Não estou falando que tudo o que foi feito até agora foi à toa, que não valeu a pena, que a vida é uma merda sem tamanho e que somos iguais a quaisquer outros, sem nada de muito especial ou diferente e, por isso mesmo, não há nada a ser feito para mudar o quadro em que nos encontramos. Calma, calma, calma. Nós somos iguais a todos os outros, sim, mas pera lá, meu chapa. Pera lá! Eu tenho um mínimo de senso crítico sob as pálpebras, rapaz. Quando fecho os olhos também enxergo as coisas. Tenho lá meus sorrisos a dar também. Só que antes de continuar a falar tudo o que eu penso sobre a vida, preciso que você enxergue da maneira mais clara possível o seu lugar no mundo. Ou você acha que os seguidores vão te salvar se você parar? Não, não mesmo. Essa é uma ilusão absurda! Absurda! Você vai ter que continuar correndo pelo seu direito de sorrir em paz. É uma corrida até o fim da vida e você sabe, sabe muito bem, que é assim que o mundo gira e as coisas funcionam.

Você sempre foi diferente porque nasceu sorrindo, mas, ainda assim, você é igual a todo mundo. São os clichês. Os clichês nos aproximam pela imperfeição, pelas feridas abertas que expõem na carne, escancaram nossa essência, índole, caráter e, principalmente, o que cultivamos como memória. E é na imperfeição que podemos achar alguma esperança. Somos demasiado humanos. Isso é parte da memória, daquilo que o nosso cérebro, in natura, seleciona para que lembremos — às vezes nos momentos mais inoportunos. As imperfeições fazem-nos lembrar de quem realmente somos, Abebe. E, acredite ou não, sua mãe sempre soube disso. A minha também.

Até acho bonito quem persiste em busca da cura e de equilíbrio nos vários setores em que a vida se desenrola e desintegra, mas a verdade é: não existe cura e enquanto você suportar o peso de toda a memória que carrega, existe equilíbrio em você. Quanto mais você aprende, mais próximo da morte fica. E você já nasce carregando peso demais sobre os ombros, desde o nome. E são nossas mães que começam esse maldito processo depositando esses pesos todos quando nos fazem crer nas certezas e clichês que dizem aos quatro ventos — e que interpretamos erroneamente, claro e cristalino, como jovens praticantes da dinamicidade que nosso tempo exige. E quando achamos que estamos diferentes do resto, é o exato momento em que nos colocamos ainda mais próximos, mais iguais aos outros do que jamais pensáramos estar. Se existe alguma justiça aqui? Toda! E é exatamente aqui que sabemos o nosso lugar no mundo. Ou que deveríamos saber. Apesar de haver uma situação extrema que nos mostra essa paridade sem reservas para com o outro.