O contínuo de Maria Firmina dos Reis

Maria Firmina dos Reis inaugurou a literatura afro-brasileira e tem, em "Úrsula", o primeiro romance abolicionista do país. Ainda que tenha rompido os portões do anonimato e do apagamento histórico, o próprio meio literário ainda se apresenta como barreira.

Por
Caio Lima

Ciclos    

A sensação de que retornamos, como país, ao que há de mais retrógrado e excludente é inevitável. As notícias se espalham por sobre decisões funcionais, às canetadas e aos desatinos de carrascos travestidos como políticos e demais líderes. O sentido autoritário resvala, é claro, na produção artística, ou melhor: no ideal estético da “boa arte”, ligada a noções morais específicas de dominância política.

Existe, mais do que nunca, uma régua, um conjunto de parâmetros — muitos deles involuntários — para regular como a arte deve ser tratada como forma e como alcance. Parece, portanto, que os novos círculos formados com relevância e espaço maiores no século XXI, ainda que periféricos, precisam fazer o impossível para que a “boa arte” não os atropele, a exemplo de dois séculos atrás.

Porém, a reflexão não tem origem num contingenciamento artístico impositivo, com medidas incautas tomadas por homens brancos — em sua extrema maioria — ditos conservadores; trata-se, aqui, de artistas e intelectuais manifestos que são incapazes de reconhecer a arte como função social e ferramenta de luta contra os mais diversos preconceitos tangíveis à classe, raça e gênero. Como metástase, a própria “boa arte” exclui e mata.

É premente, portanto, que as bases do cânone brasileiro sejam refeitas e rememoradas para que uma contínua construção do conceito de arte e, em consequência, da identidade brasileira sejam firmados em bases democráticas e verossímeis, por mais que o conceito esteta comum à “boa arte” praticada e defendida seja rompido; ou, talvez, esta fórmula possa ser usada como objeto de enfrentamento, como bem fez Maria Firmina dos Reis ao escrever Úrsula.

Uma Maranhense

Maria Firmina dos Reis publicou Úrsula, seu primeiro romance, em 1859, sob o pseudônimo de “Uma Maranhense”. À época, sob a tutela de um “agente literário” ainda não descoberto (grande parte dos seus diários — que poderiam indicar alguma direção nesse sentido — segue sob a tutela de familiares e não está disponível para consulta, catalogação e estudo), o romance não foi amplamente reconhecido e divulgado pelo meio — apesar de ter garantido a autora acesso aos círculos intelectuais locais.

Mulher negra, Maria Firmina dos Reis foi professora durante toda a vida e ajudou a criar, ao menos, onze crianças, filhos de escravos em sua maioria. Não foi casada nem mãe, mas esteve longe de ser uma mulher sozinha. Sua escassa biografia, bastante fragmentada, traça o perfil de uma mulher que viveu para aquilo que defendia, fazendo de toda a comunidade sua família e da magistratura sua missão.

Como literata, existe um pequeno acervo já condensado e editado ao longo das três últimas décadas, além de Úrsula. A obra não é extensa, porém percebe-se que é inerente à autora que toda a sua produção literária esteja conectada aos seus ideais de luta e de vida; sempre assertiva ao expor e reafirmar ideais abolicionistas e autônomos; e incisiva ao narrar mazelas causadas pelos seus principais alvos: a escravidão e o patriarcado.

Úrsula, à época de seu lançamento, recebeu não mais que algumas poucas notas de rodapé nos periódicos maranhenses, todas com ressalvas veladas e desencorajadoras direcionadas à ousadia do livro e às liberdades tomadas pela autora estreante, corajosa ao publicá-lo em tempos de um Brasil escravagista e coronelista — características arraigadas no país. Ainda assim, Maria Firmina dos Reis continuou produzindo e publicando, apesar de jamais ter recebido a devida importância; em vida, a distribuição e consumo da sua produção intelectual não passaram de um fenômeno local, até seu apagamento quase completo por mais de um século.

Graças ao trabalho de Horácio de Almeida, que entre 1970 e 1975 redescobre e publica um fac-símile do original de Úrsula, pouco a pouco Maria Firmina dos Reis torna-se presença determinante nos círculos letrados do país. Primeiro romance abolicionista brasileiro do qual se tem notícia e considerado o livro fundador da literatura afro-brasileira, Úrsula é marco de época, angariando espaços cada vez maiores no contínuo processo de redescoberta e entendimento do cânone e, por que não?, das raízes do povo brasileiro.

 Construção

Como enredo, Úrsula é um romance simples, que replica a estrutura de romances burgueses comuns à época, daqueles encontrados em bancas de jornal, de fácil consumo, folhetinescos: um triângulo amoroso em que a heroína, Úrsula, casta e pura, se apaixona perdidamente pelo herói, Tancredo, que é nobre e bom em essência — apesar do sofrimento inerente a ambos —, mas que se vê encurralada por um homem possessivo e poderoso demais, o comendador Fernando, seu tio; e, por isso, sua história de amor está em apuros, o que gera séries de desenlaces românticos e trágicos.

A aproximação de Úrsula com uma literatura de fácil consumo, estereotipada como “literatura para mulheres”, que para os papéis de gênero praticados no Brasil coronelista do século XIX não teriam a função de pensar em questões mais profundas da vida, não parece ser mero acaso. Ao assumir a estrutura folhetinesca e superficial de jovens que passam por desventuras românticas, Maria Firmina dos Reis enxerga uma porta de entrada para colocar sob a pele do romance tudo quanto idealizava como razão e luta.  

Mesmo o fim desolador, que sai da esfera do ultrarromantismo inicial e se apercebe no trágico gótico, com a ideia explícita do auto sacrifício cristão como forma de cura para todos os males — ideia que pode ter sido desenvolvida a partir do acesso ao livro A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, traduzido para o português em 1853 e considerado o principal romance abolicionista estadunidense —, possui camadas muito bem delineadas daquilo que Úrsula provoca como exercício de estética e como ideal de literatura.

Ainda como exercício estético, pode-se atribuir à Úrsula a influência indireta de outra corrente literária também em voga no meio doséculo XIX: o parnasianismo. Fica evidente que o vocabulário intrincado de certas partes de Úrsula — as que remetem aos protagonistas brancos, principalmente — não é apenas um modismo, é um reflexo de um Brasil há muito conservador e protetor de uma pureza (quase) impessoal da literatura.

É fácil identificar a construção dos parágrafos com descrições adjetivadas em excesso e, maior que a excessiva adjetivação, existe a busca incessante pelas palavras e estruturas raras, que não se repetem e se encontram numa perfeição única, complexa e profunda. As desventuras do triângulo amoroso são quase intangíveis, passíveis de admiração distante e, por isso, de fixação platônica.

A convergência do romântico para o proselitismo parnasiano dá a impressão de um escrito maior, com ares de algo mais profundo ou correto ou respeitoso para com a língua e seus mais diversos usos por parte de uma autora estreante, candidata a um círculo incomum para alguém da sua raça e consequente status quo; um respeito distante e austero tal qual o amor impossível entre Úrsula e Tancredo.

O ouro de Maria Firmina está escondido por trás da aventura, do zelo pela arte e pela literatura que entretém e alcança o cotidiano impossível. Para algumas personagens secundárias a descrição da vida, da memória e do ambiente é direta e simples, tal qual a vida no Maranhão dos escravos, dos coronéis e da professora.

As sentenças do “lado b” de Úrsula são assertivas, de fácil assimilação e sem recato estilístico: cortam na carne. São nessas passagens que a ousadia de Maria Firmina dos Reis se manifesta e desafia o modus operandi da literatura praticada no período pós-colonial. Úrsula, como obra inteiriça, aponta numa direção e quer se ver reconhecida, ainda que à primeira vista precisasse se passar por outro.

Lado B

Se o triângulo amoroso que faz jus à existência de Úrsula é intangível aos seus leitores, se utilizando da literatura como entretenimento, mostra de capacidade intelectual e meio para ser aceita nos veios letrados da época, a autora foi além: a aventura dos apaixonados é cercada por outro triângulo, não menos apaixonado e fadado ao trágico e ao desencanto da realidade como escravos.

Túlio, que encontra Tancredo acidentado e o salva de uma morte prematura, é escravo de nascença. Responsável direto pelo encontro do casal, Túlio jamais conheceu a liberdade e se surpreende com a bondade e doçura do jovem Tancredo, que num ato magnânimo de amizade lhe dá a alforria como presente e pagamento de uma dívida de gratidão. Mesmo livre em pensamento, Túlio se ressente para com o próprio corpo e sente o peso da responsabilidade em servir, única coisa que soube fazer em vida. A dívida retorna para si, então segue Tancredo até o fim, encontrando a morte atroz.

Susana, já muito velha, rememora a primeira parte da vida com o saudosismo e a resignação de quem já muito perdeu. A África livre de outrora se transformou num Maranhão de castigo, sem crime do qual pudesse ser acusada. Trazida nos navios negreiros, Susana é a memória de outro ideal intangível, muito maior que o triângulo amoroso que dá vazão ao livro. Tirada violentamente da sua terra, Susana sabe que jamais poderá voltar a ter a presença dos seus, a dançar no seu ritmo ou a se sentir digna de um lugar no mundo.

Antero também é parte da África que já não mais existe, porém compensa a falta da liberdade já muito distante, inclusive como presença, com o consumo elevado de bebidas alcoólicas, justificando a entrega da vida à rememoração de uma ancestralidade longínqua, sadia e perdida em meio à violência, ao medo e a servidão. Incapaz de ver saída, Antero se dá por entregue ao destino e se embebeda na própria dor e infortúnio.

São, basicamente, três os arquétipos traçados pela autora, subvertendo o senso comum do negro mau, trapaceiro, vagabundo, preguiçoso e inferior. Algo inimaginável à época. Os escritos abolicionistas não circulavam como “boa arte”, sobretudo os escritos por negros, como os versos de Luís Gama, que antecedem a prosa de Maria Firmina. São apenas três personas identificadas entre tantas possíveis, mas com força suficiente para lacerar o sistema escravagista e revelar ao círculo dos literatos maranhenses um novo panorama visto de dentro: a escravidão fez de homens e mulheres livres, subumanos.

Insurrectos

O cânone literário que apaga ou ignora de forma sistêmica o triângulo secundário descrito por Maria Firmina é cruel com a sua própria memória, porém resiliente o bastante para manter-se em pé no século XXI. O recente reconhecimento da autora como pioneira na literatura brasileira não suaviza o território hostil ao negro no mercado editorial do Brasil pós-colonial e seus reflexos no atual mercado; ainda que discussões sobre raça, gênero e classe estejam abertas e sejam proeminentes nos meios culturais, há a sensação de que tal tipo de pauta jamais alcançou certos níveis da intelectualidade brasileira.

A narrativa suprematista precisa de resposta, portanto. Dentro de uma produção literária historicamente apagada, soa natural que as narrativas insurgentes de grupos periféricos agora ganhem força e visibilidade sem viés ou privilégios de raça, gênero e classe que camuflem quaisquer aspectos contestados; soa natural, portanto, que esteja sob a posse de negros livres e letrados a função de documentar, manifestar e ascender à própria história.

O caráter associativo do tempo se faz necessário, já que o Brasil-colônia jamais se desfez em ideal e pensamento. Círculos letrados, autodeclarados insurrectos, são capazes de reproduzir o mais vil recrudescimento da arte com propostas bem intencionadas em favor da “boa arte” sem limitações e ideais radicais, da arte como forma de manifestação célere, criativa e levemente contestadora, mas sempre tão cheia de si mesma para pouco se importar com questões básicas, como o quórum partícipe de um evento politicamente representativo. Um círculo parnasiano em essência, só não assumido.

Que rememorar Úrsula permita, talvez, o ressurgimento da dúvida ao leitor quando da necessidade da inclusão de tais personagens num romance de banca, tão típico de um tempo não tão distante e rarefeito em se tratando do mote superficial da obra como objeto de consumo; ou que impressione a maneira de construir e correlacionar personas de mundos tão distintos, e ainda assim tão próximos que se encostam.

É provável que mais escritores ainda estejam em situação semelhante, escondidos e esquecidos nos porões da literatura brasileira. Os novos já estão, afinal, com pouco ou nenhum acesso aos grandes círculos culturais do país. Há de se repensar, portanto,quais as bases daquilo que desejamos ver como literatura a partir do que continua a revelar-se mais plural, certamente, que as bases já consolidadas.

Algum futuro parece ter surgido a partir de Úrsula, seja no momento de sua publicação, que carece de informações mais precisas, ou mesmo depois de um século de anonimato. Difícil é enfrentar a realidade: Úrsula permanece como romance folhetinesco para alguns, decerto. Toda ousadia é julgada como desvario em algum momento. Da mesma forma, toda loucura será recompensada. Talvez seja essa a resposta tardia de Maria Firmina dos Reis à “boa arte”.  

*Dedicamos um episódio do Rede Poderosa de Intrigas para Úrsula e Maria Firmina dos Reis. Você encontra nosso podcast nas mais variadas plataformas de streaming e agregadores de podcast. Ou você pode ouvir direto por aqui: