O peso, o astro e o amálgama dos sentidos

"O Peso do Pássaro Morto", livro de estreia da Aline Bei, é um fenômeno recente que remete à vida enquanto perda contínua. Os versos abraçam os vazios e perdas da protagonista e redimensionam os limites de gênero e, como romance de formação, desafia a capacidade de estabelecer comunicação e troca pelo silêncio.

Por
Caio Lima

A parte mais doída de um texto é começá-lo. Machuca. Depois de começado, toda dor gira em torno de alguma estrutura. À razão que se pretende o texto é vertical e está relacionada à construção própria da ideia como possível cura. Paradoxalmente, a cura não existe.

Verter palavra que abrigue significado próprio e aluda concretude a relações de troca, abissais entre si, é fruto de trabalho mais físico que intelectual, portanto. Assim, jamais razão e palavra serão equivalentes racionais que não seja pelo árduo esforço de um. Pode-se lembrar do poeta surrealista Benjamin Péret, que escrutinou quadros narrativos peculiares em sua obra poética e foi o poeta dos grandes começos. À exegese da sua criação, Paul Éluard diz elogioso que o amigo Péret “milita isoladamente por um novo regime, o da lógica ligada à vida não como uma sombra, mas como um astro”.

À imagem da sombra feita astro em Péret, concentra-se o começo, difícil e físico, do romance em versos O Peso do Pássaro Morto e seu amálgama dos sentidos.

O espaço-tempo é infinito demais para não ser partido e repartido em pedaços. A inquietude acerca do vazio eterno é admirável quando este é colocado lado a lado com avida prática, a vida comum, a vida como ela é ou passou a ser a partir de um determinado momento: o reflexo do tempo que falta no dia e da morada ideal cobiçada por toda uma vida; a sensação de pertencimento constantemente renovada e exposta para evitar o vazio universal; os artifícios e os esforços para manter-se cheio, ocupado, em movimento, sólido, firme; o afastamento da solidão, reforçando a sensação de impermanência; a temível capacidade de transformar tudo e todos em consumíveis.

Os ciclos repetem-se entre gerações que criam maneiras de pertencer no infinito, tão somente; de preencher os vazios; de esconder a solitude; de querer fazer de tudo uma marca absoluta da presença. Há de se ter coragem, portanto, para aceitar a permanência no vazio como centroide narrativo. Construir e subverter o baile de máscaras do comum; rechaçar a busca por enxertos e alívios imediatos é fazer das sombras, astro.

O Peso do Pássaro Morto já não trata mais sobre a busca por pertencer; não da maneira que se costuma tratar. Capaz de crer e fazer crer, e de aceitar a condição de que os vazios são conquistas acumulativas — e que ao longo da vida estarão posicionadas como eternas lacunas numa estante de troféus que deveria estar lotada —, desde muito cedo a protagonista entende que a cura é um pretexto para encher-se de algo que tão logo se mostra inexistente como conceito, uma muleta para uma já claudicante menina de oito anos. Vive-se o vazio como albergue, abrigo ou razão, mesmo sem entendê-lo ao todo. O que a vida tira jamais será reposto.

A maturidade precoce está inserida no conjunto dos sentidos que o vazio proporciona. Carla é insubstituível, sabe-se de antemão. Seu Luis também.Ninguém jamais trará conforto em meio às borboletas como Carla o fizera. Os pudins não terão mais graça, nem as conversas em busca das histórias da vida e da cura das coisas que Seu Luis tratava. Os pássaros de papel que se amontoam no quintal do vizinho na vã tentativa de se comunicar com aquela que já não mais coexiste no plano — apesar de ser ideia vívida —, fazem parte da permissividade impensada de sentir a perda como o todo, um vazio universal.

O bullying quando trocou de colégio, ainda pequena; o primeiro amor não correspondido; o estupro que a engravida aos 17 anos, cometido pelo cara que ela gostava e de quem jamais esperaria tal brutalidade; a primeira desconexão com o filho, imagem da violência, do medo, do abandono e da falta de suporte; a rotina de mãe, secretária desimportante e dona de casa; os pássaros deliberadamente mortos pela criança; a morte da Bete, o cordão umbilical entre mãe e filho; a solidão completa com a ida do garoto para a faculdade, que retorna o vazio à abstração de uma mãe que pensa no que poderia ter sido, sempre; a surpresa ao sentir no filho a dureza de uma dança.

A forma do pássaro é a conjuração do vazio, para tanto; em tudo há um processo de reconciliação com as perdas, um vazio cristalino aproveitado como razão do ser, trespassado como a execução prática de uma vida.

O amálgama dos sentidos incide na relação recíproca entre o lirismo versificado, contido em cada verso bem-posto e imbuído de contexto, e o lirismo claudicante das descontinuidades dos versos e dos silêncios, formalmente interrompidos, cortados, emancipados em jorros. Palavras, retilíneas o suficiente para coabitar e simbolizar o universo em escritura cedem às pausas silenciosas os sentidos mais profundos de uma vida.

Cede a menina à aceitação dos vazios causados pelas perdas; à integração ao novo plano de coexistência da memória, em que não mais se faz necessário a amplitude do ser enquanto cheio de si e propenso à sede do pertencer. Agora, com alguma maturidade e plenitude, existir faz sentido pela maleabilidade da vida quando acontece e não se busca, pela capacidade única de se dobrar perante os vazios até que sejam abraçados, até que a pele os sinta como corpo, hábito e caminho; e as palavras cedam ante o silêncio constituído.

Versos não são presentes; antes são simulacros do vazio, como se escrutinar O Peso do Pássaro Morto fosse feito de permanente pausa e laceração da palavra como ideia, do lirismo como registro, da aceitação do Vento como síntese e recomeço.

O velho caminho sombrio da prosa-poética (ou da poesia-prosaica) de Aline Bei é retomado como astro único e refletivo. A opção pelo silêncio onipresente em detrimento dos versos explicativos remonta a experiência de leitura e ressignifica, em aspectos singulares, a potência do romance como entendimento, mais que forma preenchida.

“Tua existência é uma noite interminável”, diz Édipo a Tirésias, em Édipo Rei, à custa de acusá-lo do crime de existir em sabedoria e vidência. Falasse a mesma frase agora à menina e já não mais valeria a sombra do acusatório, mas o abraço no vazio que preenche:

é uma Pena,
mas eu não sei fazer a morte
parar.