Paralelos Líricos - Xará, a multiplicação de vazios e o hype

"O Peso do Pássaro Morto", livro de estreia da Aline Bei, é um fenômeno recente que remete à vida enquanto perda contínua. Os versos que abraçam e entrelaçam os vazios e perdas da protagonista redimensionam os limites de gênero dentro do romance e sua capacidade de também comunicar nas pausas e no silêncio.

Por

Por Caio Lima

Xará fez parte dos lendários Quinto Andar e Subsolo, e tem dois álbuns solo na pista, os clássicos Além da razão (2011) e Nós somos a crise (2014). É um currículo de muito respeito. Para quem o conheceu por meio do projeto Poetas no topo 3.1, é bom que tenham se interessado em buscar a curta-mas-excelente discografia de um dos mestres do rap nacional. Senão, tomara que este texto os faça buscar. Por falar em texto, a obra de Xará é uma afronta aos responsáveis por perpetuar a tradição reducionista da grande imprensa em comparar o rap a “crônicas que retratam o cotidiano e/ou denunciam as mazelas pelas quais passam as camadas populares do país”. Não que seja mentira, mas o sentido é incompleto; todos sabemos que o rap não se reduz a isso.

Qualquer forma artística pode dar origem a outra representação artística, por isso cair nos estereótipos é perder o que há de melhor nas artes: a liberdade de criar. Nem o rap funciona como crônica; nem a crônica funciona como o rap. Ambos os modelos se cruzam e dialogam, mas é somente ao olhar amplamente para além dos estereótipos dos gêneros que é facilmente identificada a cratera que os diferencia. Porém, é bastante interessante que façamos desse estereótipo um fio condutor do texto.

Por definição, crônica é qualquer texto curto opinativo que retrate um recorte específico de tempo, mais comumente o presente imediato, sendo uma espécie de registro com prazo de validade, datado. Não existe uma exigência temática ou uma gama de recursos específicos para fazê-la, é como num freestyle, um modelo livre de texto, tendendo a ser bastante coloquial. O Brasil é reconhecidamente uma grande fábrica de cronistas e, por isso, ganhou a fama de ser um país que não tem como característica produzir escritores de fôlego, com um volume grande de romances longos. É uma literatura criativa, mas concisa, enxuta. Casos como o de Jorge Amado e Érico Veríssimo, romancistas natos, são esporádicos na nossa cultura de escritores em comparação a outras escolas literárias.

Esse fator literário ajuda a reforçar outro estereótipo do brasileiro: o rótulo de que o Brasil é um país com memória curta, já que sua joia literária, inclusive, é formada por um gênero literário com data de validade, marcado por ser um recorte momentâneo e sem valor para um futuro a médio prazo. Reforço, são estereótipos. Quantidade não é qualidade e crônica não é produção para periódicos (jornais e revistas de circulação contínua), servindo apenas como passatempo para salas de espera. A crônica é um legítimo retrato opinativo de uma época, podendo, sim, atravessar o tempo. E é temerário que alguém afirme que uma cultura de romancistas de fôlego tem maior valor que a de um país que produziu escritores do porte de Machado de Assis, Clarice Lispector, João do Rio, Cecília Meireles e Lima Barreto, citando poucos exemplos de currículos repletos de romances curtos, contos e crônicas.

Estudando para a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) deste ano, li muita coisa de Lima Barreto, principalmente sua metodologia de escrita e seu comportamento peculiar como escritor. Tive a oportunidade de escrever um artigo sobre o livro O Cemitério dos Vivos (leia aqui), um romance inacabado que apontou para uma nova maneira de se praticar a escravidão no país; uma escravidão moderna, ratificada por atestados de loucura. O que ele enxergou e denunciou à época por meio da literatura, transformou-se numa verdadeira metodologia de extermínio de massas e higiene social décadas depois. Essa capacidade de observação, interação e dissecação do ambiente a sua volta reflete mais no seu acervo como cronista que para o romance, o que é um ponto completamente fora da curva. Muitas das suas crônicas, escritas e publicadas há mais de um século, poderiam ser utilizadas para retratar nosso tempo sob diversos aspectos, principalmente no que tange a política, o caos social, o racismo e a solidão. Me surpreende que a cultura hip hop se inspire tão pouco na sua obra.

Xará carrega esse estigma da personalidade que, por observar tão bem o mundo, prefere o afastamento a se render a um modus operandi que não o satisfaz. Posso citar outras figuras icônicas com o mesmo comportamento, dentre elas Belchior, sempre citado por Xará, dono de composições que desafiam o tempo, e que se manteve completamente isolado do mundo até sua recente morte. Esse isolamento não é um fenômeno exclusivo da literatura ou da música, tampouco acontece na frequência do cometa Halley. Existe uma cena muito grande de personalidades capazes de construir e perpetuar visões sobre o mundo em que vivem e constroem suas manifestações de arte, porém, poucas são capazes de se permitir um isolamento tão vigoroso do mundo artístico como via mercadológica — nenhum deles se afastou da arte.

Lima Barreto sempre se colocou à margem do mercado editorial, estabelecendo uma forma de escrever única, a frente do seu tempo, e lançando olhares que traduzem e acusam a dura realidade do sistema e sua essência obsoleta, excludente e corrupta. Sem modelos pré-fabricados de se produzir e consumir literatura, Lima coloca uma série de camadas que dão textura e profundidade ao seu acervo crítico e, exatamente por isso, seu diálogo se mantém tão atual. Infelizmente, fora as obrigações escolares e o círculo acadêmico fechado da literatura, pouco se ouve falar de sua obra. Lima Barreto, sempre isolado e indignado com os grandes centros estéticos da literatura, passa por um processo vagaroso de esvaziamento.

É instintiva a identificação pessoal com cada registro, o que supera o tempo crônico e o cronológico — hoje cada vez mais curto. Nesses novos tempos é de suma importância que seja definido um nicho de trabalho e, consequentemente, de público. Com o conceito de música popular modificado, tudo é transitório e se movimenta de acordo com interesses e tendências. Emplacar um trabalho consistente e que atravesse o tempo, mantendo uma identidade e coesão próprias, é uma missão difícil de sustentar. Acreditar que o trabalho levará o devido crédito ao longo do tempo se assemelha a um fardo. Salvo maravilhosas exceções, o que é visto são roteiros em que as músicas se escoram em recursos financeiros e críticos, numa roupagem meramente técnica, para serem qualificadas e abrir espaços para atingir camadas de consumidores diversificados. Apenas por um certo tempo, claro. Dentro em pouco tudo muda. Então, trabalhar um sentido de maneira plena só é possível a partir da compreensão e do diálogo contínuo com a realidade do próximo. É simples — ou deveria ser —, apesar de não parecer. E, justamente por não parecer simples, poucos sentem falta ou necessidade de fazê-lo.

O diálogo que permite a contextualização da arte a uma realidade comum é o que dá as texturas complexas — longe da avaliação meramente técnica — para que a música, no caso do Xará, se mantenha relevante. E boa parte dessa relevância vem de uma necessidade aparente de dialogar no tempo presente com o máximo de transparência. Tanta transparência, no meio da arte, evidencia uma forma de solidão ou um estado natural de não pertencimento. É como se, numa esfera íntima, observar e tentar traduzir o meio através da arte fosse a única maneira possível de entender uma não conformidade natural com a vida como ela é, não apenas para si, mas para o conjunto da obra. E dentro de um movimento de contracultura, quanto mais se olha para o mundo, maior deve ser a resistência ao que é ofertado pelas engrenagens perfeitas do sistema. Isso não é refletido apenas numa esfera social. É salvaguardar noções que vão além da superfície. O sistema age em foro muito íntimo, com questões psicológicas e sentimentais graves. Mas nada disso atua de forma proporcional. A profissão-perigo justifica-se, então, por motivos subjetivos e pessoais também. Nem sempre é óbvio decifrar o peso que é colocar palavras no papel, muito menos expor o resultado do que está escrito.

Por isso é necessário entender a figura de Lima Barreto com certa fluidez para explicar a resistência proveniente da recusa ao sistema e do isolamento. Poucos conseguiram ser sensíveis o bastante para fazer da sua solidão um impulso para a arte. Mesmo com aspectos da crônica, ninguém que vive a cultura hip hop há tanto tempo pensa num prazo de validade para o que produz, logo para o que pensa. Dessa forma, a música não permanece estática em episódios específicos no tempo; ela se arrasta por um futuro medido pelas proporções que os fatos relatados tomam, como um reflexo do passado que constrói uma imagem de presente mais elástica, de um desenvolvimento contínuo. É como se a vida estivesse parada naquele momento, mas o tempo é incapaz de parar, mudando apenas os personagens. É uma relação na qual não existe domínio, apesar da clara noção da existência. A arte é o que se pode considerar de mais próximo a um entendimento dessa relação entre tempo, momento e identificação cíclicos. Assim sendo, Xará está passos à frente do seu tempo apenas por observar, sentir e ter coragem de colocar seu sentimento do mundo na arte que produz. O que fica para o ouvinte atento é a admiração e a repetição de clichês: como é que eu não vi isso antes? Ou: como é que esse cara sabia que isso ia acontecer nessa época? Ou ainda: eu passei/estou passando exatamente por isso, mas como assim?

Nesse ponto, talvez, tudo gire em torno da tarefa mais complicada e solitária da vida: manter-se ajustado aos próprios sentimentos. Assim, o isolamento faz-se necessário até o esquecimento por parte do público e do mercado. É um movimento de mão-dupla: ao mesmo tempo que o artista deseja sair do mercado para não ter de praticar os sacrifícios exigidos pelo meio e manter-se coeso; o próprio público coloca o artista numa redoma pela relevância do diálogo exercido com a arte, criando nichos cada vez mais restritos e cultivando entraves para novas gerações de ouvintes. A impressão que fica é a de que Belchior sempre esteve certo quando decidiu sumir e abrir mão de tudo para não ter que se tornar refém dessa sede por justificativas. Há a necessidade de saber dos motivos da ausência para que, quem sabe, sintam a falta de determinado alguém. Se não for justificável ou, simplesmente, justificado, o vácuo é maior do que se pode imaginar.

A arte é uma sequência de contradições autossuficientes, mas, para tanto, deve-se subverter as próprias convicções, a ponto de abandoná-las. Desconstruir conceitos e quebrar paradigmas para conseguir manter uma linha de causa e efeito constante durante toda uma carreira é de um estoicismo inacreditável. A isso também cabe a compreensão do tempo e do isolamento. Xará, como objeto do texto, pela história que possui dentro do rap, poderia mudar seus pontos e crenças conscientemente e seguir uma linha mais rentável e expositiva para o momento. Porém, seria condescendente demais para com o sistema abrir mão de um legado em prol de necessidades secundárias — isto é, colocando a própria arte como algo primário.

A discussão não gira em torno do dinheiro e da fama. Dinheiro é necessário e fama é relativo. Os temores e a resistência ao mercado ficam por conta da mercantilização de um gênero que, por si só, é popular. Entretanto, popular não significa raso. A origem nada tem a ver com o esvaziamento de sentido propagado pelo braço forte ditador de tendências dentro de qualquer ramo de atividade em evidência aqui no Brasil, inclusive da arte. Viver de rap, mesmo num momento de expansão comercial, ainda não é fácil. Da mesma forma que na literatura, poucos tem o privilégio de viver do que produzem de melhor. Menos ainda tem o privilégio de não precisar moldar seu discurso para fazer da sua arte, seu sustento. Dessa forma, o isolamento é uma maneira de se preservar da liquidez do momento que o rap vive. Até o revide tomar forma, é melhor não se envolver. É o alto preço que se paga pela coesão ante as exigências de um meio que começa a ver investimentos mais altos e seguros para o “desenvolvimento” da cena.

É raro que personalidades tão distantes em tempo e distintas em importância tenham tantos aspectos em comum, reforçando a situação dos momentos que apenas a arte é capaz de se aproximar. Puxados pelo isolamento que os caracteriza, Lima Barreto e Xará possuem muitas linhas artísticas e comportamentais convergentes. A atemporalidade, proveniente de um diálogo que transcende — muito — o superficial, da crônica de Lima Barreto e da música de Xará, os coloca sob alguns pontos nítidos que devem ser destacados:

  1. Ainda temos pessoas capazes de escrever o tempo presente de forma a perpetuá-lo sem estarem presas a condições, criando maneiras próprias de fazê-lo;
  2. Esses mesmos expoentes tendem a ser oprimidos pelas condições do seu tempo e, na busca por uma melhor forma de expor sua natureza, preferem o isolamento que propicia a criação de representações mais próximas dos seus sentimentos e crenças pessoais;
  3. É criada uma imagem de nicho que pode ser vista pelo público como injustiça do mercado e suas dificuldades estruturais de distribuição e consumo; ou como uma espécie de sectarismo intelectual, um exclusivismo, por quem consome.

Estes três itens são bastante sólidos em se tratando de Lima Barreto e sua obra. As lacunas mercadológicas são provocadas para que sua obra não seja comumente visitada em meios não acadêmicos, com funções e padrões específicos e longe de exercer a resistência de origem, característica do autor. Infelizmente, pensar Lima Barreto não é tão comum quanto pensar e consumir Mário Sérgio Cortella ou Leandro Karnal, por exemplo. Sendo que, substancialmente, Lima Barreto é sublime ao explorar aspectos mais profundos e sólidos de nossas instituições, até os mais subjetivos.

Xará se enquadra no primeiro item. Como síntese de um cronista que dispensa rótulos, sua música é o retrato de uma vida comum. É importante que exista esse tipo de manifestação mais próxima da realidade em culturas que nascem com o dever de se impor perante a um sistema hostil e exclusivista, sem contornos para esconder o cerne da questão e distrair a comunicação entre as partes. É um exercício de autoafirmação para o ouvinte identificar, a cada audição, um espelho do seu mundo sob a ótica de outra pessoa. Os outros dois pontos vão se firmando e estão cada vez mais sólidos. Seja por vontade própria, sejam as condições de mercado inóspitas para quem deseja fazer arte com sinceridade e que se comunique com a massa, a movimentação para que o Xará esteja mais longe dos holofotes acontece. Seria, portanto, uma derrota anunciada de uma guerra que vem sendo travada há anos, deixar que no momento mais popular do rap no Brasil, Xará caísse numa redoma e seu isolamento o levasse ao esquecimento por puro desinteresse do público — que já não é muito interessado em buscar as raízes do que é feito por aqui.

O cronista Xará, às vésperas de um novo álbum, tenta, mais uma vez, imprimir sua marca e perpetuar sua arte através desse diálogo sobre a crueza do cotidiano. Poucos são capazes de se manter coesos durante as diferentes fases da vida e do rap. Espero que quem tenha chegado até aqui busque os discos, os ouça com muita atenção e aproveitem o acesso a um dos MC’s mais líricos que temos. Espero, também, que aproveitem o embalo para pesquisar sobre Lima Barreto, Belchior e outros tantos pilares contraculturais brasileiros que preteriram o mercado e suas estruturas pelo isolamento e a consistência de uma obra coesa. Que venha o novo álbum do Xará, e que seja mais um clássico.

P.S.: Para entender um pouco mais o sentido de isolamento, diálogo e vazio, leia a resenha de Crime e Castigo (Dostoiévski), clicando no link.