Podcast #01 - Saramago, Gasolina e Monarquia

Se você quer recapitular alguns pontos da conversa ou ainda não ouviu o Podcast #01 - Saramago, Gasolina e Monarquia, então o Rede Poderosa de Intrigas adianta seu lado e deixa o caminho já na ordem e no jeito para facilitar sua vida.

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Introdução

Ler Saramago é sempre uma experiência entre o encantamento e a desolação (e talvez confusão para outros), e em Objecto Quase não poderia ser diferente. Publicado em 1978, os seis contos que compõem o livro funcionam como uma grande amostra da versatilidade e visão de mundo por parte do autor português.

Os registros mitológico, absurdo, surreal, fabuloso, o realismo fantástico — talvez no ápice — e, surpreendentemente, a distopia, são estilos literários aceitos e usados por Saramago na composição dos contos e, também, absorvidos pelo mercado editorial à época, o que pode ser tomado como experiência de um autor ainda em desenvolvimento (mas já extremamente versátil) — e, em parte, justificar o título do livro como sendo uma grande ironia à literatura, capaz de objetificar o homem se aliada à estruturas de mercado para dominação das massas.

As mazelas do homem inundado por um sistema excludente que o expõe a formas objetificadas de enxergar o seu entorno, é o mote das narrativas entregues. Porém, os espaços permitidos pelos textos são mais maleáveis e Saramago testa novas fórmulas que tendem a aportar no “famigerado” maravilhoso — marca registrada do autor — mas por vezes acaba seguindo caminhos mais mercadológicos e/ou convencionais à época, alimentando diferentes nuances para o desenvolvimento dos enredos e encadeamentos de ideais propostos.

Fato é que o “humano-demasiado-objeto” e o “objeto-demasiado-humano”, em Objecto Quase, são introdutórios à sociedade pensada por José Saramago e transportam o leitor diretamente para os questionamentos que perduraram ao longo de uma carreira prolífica — e laureada — e reconhecidamente crítica ao que é concebido como sistema pelo autor.

O Rede Poderosa de Intrigas montou, especificamente com base nos contos Embargo e As Coisas, uma série de relações que deveriam — ou não — estar alinhadas à narrativa de Saramago, ainda fresca enquanto estrutura e, mais do que nunca, plausível enquanto crítica à sociedade, à natureza do homem e, finalmente, à própria literatura como produto.

Atual e clássico ao mesmo tempo

A visão crítica acerca da estrutura que nos rege enquanto sociedade é um dos pilares fundamentais da literatura produzida por José Saramago. Em Embargo e As Coisas temos aspectos que se complementam a fim de traduzir a visão de mundo do autor português para a realidade atual. Dado o momento do Brasil, ficou claro o paralelo com as ações tomadas na recente greve dos caminhoneiros, por exemplo, e a convulsão pela estocagem de combustível, alimentos e demais insumos.

Além disso, discutimos como as coisas que temos, em certo momento parecem ser mais valiosas do que pessoas. Este é um tema já abordado na literatura, mas na ligação com os contos de Saramago, nos deu o tom para a discussão. Na conversa, chegamos à conclusão de que roda social gira pelos seguintes quadrantes:

O viés distópico de As Coisas é surpreendente pela sensação claustrofóbica que a sucessão de fatos proporciona, num sistema composto por castas que precisam agir certas regras para que exista a mínima chance de ascender para uma casta superior, o que permitirá algumas vantagens. A desimportância do ser humano, a necessidade do sacrifício e a importância dada ao consumo pelo sistema e a obediência calada e cega ao Governo, são as âncoras que fazem a máquina girar.

A própria escolha do gênero, em franca ascensão no mercado à época, é uma forma de Saramago elencar sua crítica à normalização das estruturas de um estado de exceção. O poder do gênero distópico é largamente utilizado no conto como forma de manipulação. A unilateralidade da visão do narrador-personagem é capaz de induzir maneiras de enxergar o mundo através de pequenas semelhanças com a realidade aparente sem gerar qualquer tipo de contestação, em afirmações altamente indiferentes à realidade, construídas com base em proposições superlativas e rasas.

O conto assusta pela emulação de uma realidade que ainda não chegou e, provavelmente, não precisará chegar mas que se parece tanto com o que já vimos na História em algum momento. O exagero acaba por normalizar condições de desumanização já existentes. O alívio por ainda não sofrer dos males desse futuro cegam para as condições presentes.

Nas distopias clássicas sabemos que há dois poderes em embate: o regime que faz o que for necessário para se manter no poder e aqueles que estão fora do regime que lutam com ele o quanto podem. A violência, porém, é apenas uma das armas do regime. E talvez nem seja a mais eficiente.

O conceito de indústria cultural elaborado por Adorno é uma das maneiras de compreender sob quais forças estamos subjugados e por quais subterfúgios culturais o sistema é capaz de moldar e desenvolver um consciente coletivo servil e pouco reativo. O conteúdo, portanto, é tão bem preparado e desenvolvido quanto necessário e ao influenciar diretamente o que é a cultura e como ela é consumida, o regime em voga consegue algo muito mais profundo: moldar a mente daqueles sob seu jugo. É justamente por isso que a censura é uma das práticas mais comuns em regimes autoritários. A queima de livros também. Nada estimula mais uma mente a dobrar-se em obediência do que estímulo nenhum.

Não só, ao perdermos o tato com o que de fato importa no hoje, somos cada vez mais suscetíveis a uma manipulação descarada, talvez justificando o aumento das chamadas “fake news” ou de debates que parecem ser completamente fora da realidade como a volta da monarquia brasileira. O que temos hoje é um mundo conectado virtualmente, mas desconectado em alguns outros pontos fundamentais. Saramago parecia saber disso há bastante tempo.

Obras literárias com capas de memes genuinamente brasileirosMeme retirado da página

Aqui estão links de textos, áudios e afins que você pode usar para aprofundar essa discussão!

Textos:

· Conto Embargo na íntegra
· Resenha: Objecto Quase n’O Poderoso Resumão
· A era de ouro das distopias | El País
· Indústria cultural e a manutenção do poder | Revista Cult
· Hollywood na era da produção globalizada | Le Monde Diplomatique Brasil
· ‘A indústria cultural sobrevive do que é recalcado na capacidade de percepção estética das pessoas’ | UFMG
· Subjetividade e indústria cultural: uma leitura psicanalítica da cumplicidade dos indivíduos com a lógica da mercadoria | Psicologia em Revista
· Netflix: questões de uma relação com a indústria cultural | Revista Fórum
· A educação como indústria cultural: um negócio em expansão | Revista Ibero-Americana
· Família imperial brasileira quer a volta da monarquia no país | Gazeta Online
· Crise em Porto Alegre? Onda de consumo é provocada pelo medo da escassez | Sul 21

Sites:

· Casa Imperial do Brasil
Podcasts:
· A greve dos caminhoneiros, o preço da gasolina, o capitalismo e a hipocrisia | Primo Gurila

Vídeos:

· Vídeo: O futuro da indústria da cultura | Rodrigo Duarte
· Vídeo: A indústria cultural hoje | Fábio Akcelrud Durão
· A dialética do esclarecimento: Adorno e Horkheimer | Colunas Tortas
· Diálogos — Indústria Cultural | TV UNESP
· Utopia: um desejo real de algo irreal | Franklin Leopoldo da Silva — Casa do saber
· Mensagem do Príncipe Dom Rafael aos monarquistas | Pró-Monarquia — Casa Imperial do Brasil

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Objecto Quase foi uma leitura para o projeto com nome mediúnico mais legal da literatura lusófona, o projeto #saramagoentrenós. Junto conosco estão a @coisasqueleio, @priafonsinha, @a.carol.leu e a @clioecaliope (que resenha o livro do mês lá n’O Poderoso Resumão). Para acompanhar o projeto é muito simples: é só seguir a hashtag no Instagram e ser feliz com Saramago. Partiu?

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