Podcast #03 — Tróia, poder e Copa do Mundo

A BBC atacou de novo e trouxe uma série que deu o que falar em vários sentidos, reconstruindo uma das histórias mais conhecidas do mundo: a queda de Tróia. Para saber como essa conversa começou, ouça o podcast completo:

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A História existe há milênios e segue influenciando a literatura e a cultura como a conhecemos. A história de Helena e Páris já inspirou filmes, livros, peças e séries no mundo todo. Agora foi a vez da aclamada BBC fazer sua versão de um amor trágico, que trouxe destruição e culminou na ruína de uma das cidades mais prósperas da Grécia Antiga.

Mas se já foi lida, relida e recriada tantas vezes, o que a BBC poderia trazer de novo? — você pode estar se perguntando. Essa é, de fato, uma excelente pergunta. Foi desse ponto que nosso interesse pela série surgiu.

No Podcast, Caio Lima explica o que chamou a atenção ao ver a série e os dois pontos principais tratavam do poder dos Deuses e da representatividade grega. Primeiro que tudo começou porque três Deusas queriam que alguém decidisse qual era a mais bela. Zeus se retirou da discussão como um pai cansado de lidar com os caprichos das filhas e sobrou para Páris, um camponês, o ônus da escolha. Deu no que deu.

Após a decisão tomada, as Deusas assumem lados e deixam a fúria guiar suas decisões — algo extremamente humano. Mas o que chama a atenção, mais do que as atitudes humanas dos deuses e deusas, são as escolhas do elenco na série. Zeus, o Deus todo poderoso do Olimpo, é interpretado por Hakeem Kae-Kazim — um ator negro. Aquiles, o guerreiro mais temido da época, é interpretado por David Gyagi — outro ator negro. São dois dos principais exemplos.

Para quem conhece apenas a adaptação hollywoodiana, em que Aquiles é interpretado por Brad Pitt, a BBC parecia ter decidido se aproveitar de alguma ação afirmativa. Mas não. Há diversos indícios de que Aquiles era, de fato, negro. No Museu Britânico é possível encontrar um vaso datado de 540 a.C. pintado com a cena de Aquiles assassinando Pentesiléia, Rainha das Amazonas. É possível notar na arte que Aquiles, para muito além de uma armadura, tem o corpo escuro:

Vaso grego: Aquiles matando Pentesiléia — Rainha Amazona

Portanto, não é surpreendente saber que foi Hollywood, na verdade, que mandou mais um de seus famosos whitewashings na adaptação. Além dos debates de raça, essa discussão nos mostra que a Grécia tinha uma representatividade maior do que imaginávamos. Até porque, os limites geográficos da época não eram exatamente os mesmos que hoje.

Essa mesma Grécia também é conhecida como o berço da democracia. Foi a democracia ateniense, que era considerada inclusiva (e o era até certo ponto), a base da democracia que conhecemos hoje. Portanto, a Europa, continente recheado de monarquias, teve uma fagulha de democracia que ficou obscurecida por séculos a fio enquanto reis lutavam entre si e davam conta da colonização do mundo.

Lembrem-se que os processos de colonização e democracia não combinam muito e não haveria como subjugar territórios sem o uso da força bruta, o que nos levou, no Podcast, a um debate sobre o papel dos governos e, eventualmente, das monarquias e ditaduras que ainda existem ou assombram tentativas de democracia pelo mundo afora.

Em se tratando de Europa, foi inevitável falar sobre a Copa do Mundo, que virou uma Eurocopa já nas Quartas de final. Apesar da Eurocopa fora de época, os times mostraram um alto nível de diversidade étnica, não aceita (ou reconhecida) nos próprios países por setores da sociedade, e até jogadores comentaram e se posicionaram abertamente sobre a questão, relatando suas experiências com o racismo dentro e fora dos gramados.

O que vemos hoje são atitudes preconceituosas que parecem ser intrínsecas - — o que torna toda essa discussão ainda mais paradoxal para os moldes atuais — , tornando-se ainda mais explícitos durante eventos como a Copa (quase literalmente) do Mundo.

Livros-base:

A guerra de Tróia e a adaptação da BBC:

O papel das monarquias e a discussão sobre poder:

A Copa do Mundo e representatividade:

Recomendações:

O Poderoso Resumão

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