Podcast #10 — Madame Bovary

Quando estávamos conversando sobre como começar 2019 com o Rede Poderosa de Intrigas, Caio e eu decidimos focar nas histórias que sabíamos que renderiam discussões,no mínimo, interessantes. Madame Bovary surgiu como uma das primeiras opções.

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Polêmico desde sua primeira publicação, em 1856, a obra do francês Gustave Flaubert se mantém viva e instigante mais de 160 anos depois. Caso real: Caio Lima conta que uma amiga estava lendo o livro no trabalho e, ao passar por ela e notar que ela carregava um exemplar da obra, um colega de trabalho soltou a pérola “esse é aquele livro de puta né?!”

A fama de Madame Bovary é tão intensa que se escuta adjetivos atrelados à obra mesmo de quem não a leu. Eu mesma já sabia que o livro era sobre uma mulher “do mundo” antes de ler a primeira frase. A reputação de Emma Bovary é debatida por quem a conhece e por quem acha que a conhece.

Foi daqui que surgiu nosso interesse em ler a obra e discuti-lá no Rede Poderosa de Intrigas. Abrimos o ano, portanto, tentando responder se Emma era, de fato, puta ou não; e você pode acompanhar essa conversa no episódio 10.

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Patricia Quartarollo, d’O Poderoso Resumão, e Caio Lima, do Rede de Intrigas, debatem assuntos variados sobre o mundo…linkkle.com

Madame Bovary foi lançado em fascículos, como era o costume da época. Mesmo antes do capítulo final, a alta sociedade francesa estava exasperada. Flaubert foi à julgamento acusado de produzir uma obra que ia contra todos os valores morais, além de ser ofensivo à religião e aos bons costumes. Na disputa, Flaubert proferiu as famosas palavras: “Emma Bovary sou eu”. O autor foi inocentado e o livro pôde prosseguir para a publicação final e o sucesso absoluto que se seguiu.

Emma Bovary é uma grande leitora. Ela lê romances e sonha com a vida das personagens. Margareth Rago, historiadora da UNICAMP, em entrevista ao Café Filosófico CPFL, explica que Emma é uma “péssima leitora. Ela não entende as nuances do que lê, ela entende as histórias como algo real”. E é assim que Emma cria para si a expectativa de como sua vida deve ser.

Quando ela se casa com o insosso Charles Bovary, a expectativa que ela tinha para seu casamento entra em colapso ao se deparar com a realidade. Seu marido é um homem comum, beirando a mediocridade. Um médico formado a mando de sua mãe, Charles não tem grandes ambições além de manter uma vida tranquila, com seu trabalho e sua família. Se Emma não entende as nuances de suas fantasias, Charles não entende muito de contexto social.

Na pequena cidade de Yonville, eles ainda conhecem Homais, um farmacêutico que fala muito sobre racionalidade e progresso. Homais se julga um homem à frente de seu tempo e pratica medicina sem licença. Há uma certa “richa” entre ele e Charles que este último não percebe.

Há ainda o mercador (e agiota) Lheureux, que se aproxima dos Bovarys e se aproveita da confusão e desconhecimento do casal sobre finanças para oferecer empréstimos que estimulam o consumo de Emma.

O romance provinciano de Flaubert estimula nosso olhar para os estereótipos da organização de uma certa França burguesa à época da construção da obra.

Os rótulos de polêmico e afrontoso que o livro recebeu se deram por conta de León e Rodolfo.

León é um jovem escrivão. Ambicioso, ele está na trilha para uma carreira de sucesso depois dos estudos. Ele se apaixona por Emma e é correspondido. Porém, Emma é casada e nada pode acontecer. Ambos parecem compreender essa realidade e León se afasta de Emma, mudando-se para outra cidade para dar sequência aos seus estudos e carreira.

A história com Rodolfo é diferente. Ao ver Emma pela primeira vez, Rodolfo decide que irá conquistá-la. Flaubert coloca o leitor em contato direto com o que Rodolfo pensa (algo que não acontece com León) e o processo pelo qual ele passa para decidir que o casamento de Emma é irrelevante para seus desejos.

O caso entre eles quebra o paradigma de relacionamento para Emma: ela percebe que ao se relacionar com alguém fora do casamento, nada muda de fato se ninguém souber e que ela pode atrair a atenção de um homem como Rodolfo, de posses e ambicioso. Seu valor como mulher, a seus olhos, parece ser reforçado.

Não é por acaso que o termo “bovarismo” na psicanálise designa alguém que vive em devaneios e fora do mundo real, buscando realizar uma fantasia sem fundamentos vivendo em uma "insatisfação crônica". Emma abre mão de sua identidade (mãe e esposa) para viver o que ela acha que é real e verdadeiro.

Rodolfo é exatamente o tipo de pessoa que iria alimentar esses sonhos e depois fingir que nada aconteceu. Quando o relacionamento termina, Emma perde a base. Seus altos e baixos passam a ser mais intensos.

Quando está em seus bons momentos, Emma amplia essa felicidade por meio de um consumo exacerbado de coisas que ela acredita que também reforçam a vida que ela deveria ter. É assim que ela acaba por deixar a família à beira da falência.

A verdade é que se o livro fosse sobre Rodolfo não teria causado tudo o que causou. Emma quebrou a barreira de mulher do lar e esposa dedicada dentro da instituição do casamento. A mulher, tratada como a base do casamento, era (e ainda é, de certa forma) malvista quando decide não seguir o roteiro social preparado para ela. Podemos ter reservas morais ao adultério por diversos motivos, mas o que aprendemos desde sempre é que quando ocorre no casamento, é um dos piores pecados. E é pior ainda quando é a mulher que trai.

Todos os papéis reservados a Emma Bovary simplesmente não foram suficientes para abarcar seus desejos; e ela decidiu, então, renegar a tudo o que diziam que ela deveria ser.

O foco do autor em destrinchar o dia a dia da classe média e baixa fez com Madame Bovary fosse considerada a precursora de um movimento literário denominado “realismo”, um movimento que batia de frente com o romancismo, tão vigente até ali. Stendhal, também francês, e o russo Pushkin também foram outros nomes atrelados a este novo movimento.

Mas, afinal, é um livro sobre uma puta? A conclusão que chegamos é que a obra de Flaubert é tão bem construída e tão intensamente real que a maneira como uma pessoa a define diz mais sobre o leitor do que sobre a história em si.

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