Garotas continuam morrendo

Estatísticas mostram que, apenas nos primeiros dias de 2019, mais de 30 casos de feminicídio foram registrados no Brasil. Com a diferença de pouco mais de três décadas, os casos impossíveis de Selva Almada servem para ilustrar o desterro e o quadro amplo de violência vivido por mulheres em toda a América Latina, sem o menor sinal de mudança.

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Selva Almada, em Garotas Mortas, conta três casos de feminicídio cometidos nos anos 80: Andrea Danne, apunhalada enquanto dormia em casa, no próprio quarto; María Luisa, encontrada morta num terreno baldio do bairro; e Sarita Mundín, que desapareceu sem deixar vestígios numa ida ao rio com seu suposto protetor e assassino.

A não-ficção realizada por Selva Almada causou frisson pela temática e força do texto, sendo convidada, inclusive, para a Flip 2018. Os três casos, jamais resolvidos, são objeto de uma investigação vigorosa que tende ao vazio, ao nada, à mostra da ineficácia e à constatação da impotência da autora e das autoridades responsáveis em solucionar os trágicos casos das jovens mortas.

Nós, do Rede Poderosa de Intrigas, trouxemos para esse episódio uma discussão sobre o fenômeno Garotas Mortas e sua busca que jamais terá fim, apresentando velhos problemas mal resolvidos e abrindo novos caminhos para a não-ficção latino-americana.

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Tempos sombrios. Fatos derretem até a possível relativização das obviedades do mundo. Dados estatísticos graves e pesquisas científicas são contestados e subvertidos, postos como inverdades e falácias universais numa grande teoria da conspiração. Acompanhamos perplexos a crescente onda de desinformação, intolerância e violência. Eis que num momento crítico da identidade brasileira, em eminente colapso, a editora Todavia publica Garotas Mortas, livro de não-ficção de Selva Almada, uma ficcionista.

Retratar a própria investigação acerca de três casos de feminicídio no interior da Argentina nos já longínquos anos 80 pode ter por premissa, aos desavisados, um quê afetivo, panfletário e datado. Ledo engano. As semelhanças do descaso das autoridades para com a memória e a família das vítimas, a dura realidade das meninas mortas e os grandes vazios e interrogações deixados pela naturalidade com que exterminam mulheres na América Latina, são sinais dos tempos que parecem estar mais vivos do que nunca.

Três casos acontecidos há mais de três décadas não resumem uma história contínua de crueldade e de apagamento sumário, mas podem mostrar quadros mais vívidos e apontar direções.

Trazer à luz quadros que alertam e aprofundam a realidade sob o nosso nariz é um dos principais deveres da não-ficção. Enquadrado como todo e qualquer livro que descreva procedimentos ou estudos de áreas específicas, com base e argumentação científica — ou até mesmo empírica — sedimentada, o gênero é um sucesso de vendas muito em razão do fenômeno causado pelos lançamentos massivos de livros de autoajuda e religiosos, ou alguma espécie de pauta científica muito em voga para o momento.

Selva Almada, poeta e escritora de ficção por formação, emprega aspectos da maneira de narrar que a caracterizou em obras como O Vento que Arrasa(Cosac Naify, 2015), para contar a história das três garotas assassinadas nos anos 80: Andrea Danne, cursando psicologia e apunhalada enquanto dormia no seu quarto, na casa dos pais, em 1985; María Luisa, encontrada morta num terreno baldio depois de ter saído para uma festa, em 1983; e Sarita Mundín, mãe muito nova e jamais encontrada, foi vista pela última vez ao sair de casa para ir ao rio com seu protetor, seu provável assassino, em 1987. Garotas tão diferentes que se confundem nos quadros intrínsecos de violência e apagamento póstumo. Mais lembradas, talvez, como lendas urbanas, caso de María Luisa.

Não existe muito mais informação a ser colhida, é um areal. Algumas peças centrais, parentes e pessoas próximas, optam pelo recolhimento e o sofrimento silencioso, conscienciosos de que tudo já passou há mais de trinta anos e não vale a pena ser revivido, ainda mais por não se tratar de uma jornalista ou autoridade legal a investigar os casos. Os poucos que decidem colaborar ajudam muito pouco, seja por terem de reviver processos tão traumáticos ou por, realmente, saberem ainda menos que a, agora, investigadora.

Os dados oficiais são insuficientes, incapazes de entregar qualquer informação sólida que ajude a solucionar os casos; e parece jamais ter sido de interesse das autoridades responsáveis locais dar continuidade às investigações. Num arroubo de desterro e esperança misturados, Selva consulta videntes e místicos à procura de qualquer vestígio que a ajude encontrar uma saída para o vazio indissolúvel deixado pelas três garotas mortas.

Portanto, promover e elevar as três histórias que assombram Selva só poderia acontecer pelo próprio processo investigativo da autora, que se coloca a frente de todo o processo e permite-se guiar por diferentes estágios de incompreensão e vazio, todos muito solitários e mórbidos.

É nesse ponto, na decisão tomada de relatar os casos a partir da perspectiva da própria experiência investigativa, que a técnica de Selva Almada se alia à não-ficção para construir Garotas Mortas. Ao jogar com as perspectivas apresentadas à continuidade das investigações paralelas infrutíferas, Selva dá voz aos vazios que se acumulam e a sensação de desterro ao se ver envolta por fantasmas que crescem a todo momento, a ponto de confundirem-se, como se as três garotas fossem apenas uma; e poderiam ser somadas a outras tantas que permanecem ignoradas, apagadas, solapadas pelo tempo. Não raro é a confusão entre as histórias fortíssimas das três garotas aliadas a relatos da vida da própria Selva e à micro-passagens de outras tantas mulheres, também vítimas do machismo e da violência cotidianos, casos que passam batidos por todos nós.

A tênue linha entre os objetos da investigação e o processo investigativo trazem um paralelismo interessante, transformando a não-ficção da autora em algo pareado às publicações desse início de século, em escritos que transmutam a experiência do autor como centro narrativo, que recriam a (não-)ficção a partir da perspectiva pessoal, utilizando a memória — por vezes volátil e confusa — como protagonista de um gênero que deveria ter na mais alta conta, como o conhecemos, a exposição de fatos e dados precisos, de maneira límpida, direta, sem floreios.

Para três garotas sem rosto e há muito apagadas, Selva toma a decisão de colocar-se a frente das histórias e encarar o tacanho mercado editorial. Num período em que mulheres ascendem na luta por direitos na Argentina, com movimentos expressivos como o Ni Una Menos, a realidade da publicação aqui no Brasil encara o outro lado da moeda. Com a crescente vigilância ostensiva, ignorância, violência gratuita e uso indiscriminado de privilégios, vítimas são culpadas daquilo que sofrem.

Selva Almada apresenta um novo modelo de não-ficção, centrado na própria experiência investigativa para apresentar os fantasmas de três garotas brutalmente assassinadas. Decerto, aspectos podem ser levantados acerca do que existe de novo: a peculiar forma dada à narrativa da autora ou o recente boom de autores latino-americanos, do qual Selva Almada é vanguarda. Para além da literatura, Garotas Mortas é uma denúncia e um recado explícito sobre os tempos sombrios que se seguirão em terras tupiniquins: não é mais tolerável que o Estado e a sociedade ignorem e naturalizem a violência contra a mulher, e não permiti-los esquecer é um dever de todos nós.

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