A ruptura do humanismo e a vazão da peste

Com cinco livros publicados, o franco-argelino Albert Camus venceu o Prêmio Nobel de Literatura em 1957, com apenas 44 anos. Dois anos depois, ele pegou uma carona com seu editor e morreu quando o motorista bateu o carro. O editor morreu cinco dias depois no hospital. No bolso de Camus, estava o bilhete do trem que ele ia pegar antes da oferta de carona. Em 2017, a editora Record relançou A Peste e outras obras do autor.

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Publicado em 1947, A Peste talvez seja o romance mais reconhecido e elogiado de Albert Camus, escritor e filósofo existencialista franco-argelino. Em sua curta produção e registro, deixou apenas cinco livros publicados em vida. Hoje sua obra é reeditada pela editora Record.

Libelo humanista, o romance alegórico expõe a purulência dos flagelos que dizimam populações à luz da solidariedade comum aos homens em tempos de crise, como na guerra: A Peste, admitido pelo próprio Camus anos depois de seu lançamento, encarna o terror da ocupação nazista em território francês durante a Segunda Guerra Mundial, época em que foi escrito o romance; e serve, não obstante, como alegoria a todo e qualquer regime autoritário e violento: os passados, os presentes e os futuros.

A rápida evolução da peste em Oran — cidade argelina que sofrera com, pelo menos, duas epidemias catastróficas — dá-se sob o olhar crítico de Bernard Rieux, médico e humanista. Primeiro a notar que se tratava de um novo surto da peste bubônica, Rieux se recusa a acreditar na extinção da população citadina por meios endêmicos e luta contra dois inimigos comuns: a doença e a ordem da cidade.

Como se fenômenos assim fossem provocados pelo próprio homem e tivessem fugido ao seu controle, os passos para a retomada da humanidade perpassam sentimentos confusos e contraditórios: o medo ataca as instituições em Oran, que dão tempo suficiente à peste para que se desenvolva; impiedosa, esta se espalha num misto de negligência, incredulidade e lentidão para com as decisões cabíveis. Ainda assim, há de existir cura para a peste, qualquer que seja o meio ou motivo.

Rieux crê e observa, no entanto, a solidariedade afim. Em busca da sobrevivência, enquanto corre contra o tempo da peste, diz: “Pode dizer-se que essa invasão brutal da doença teve, como primeiro efeito, o de obrigar nossos concidadãos a agir como se não tivessem sentimentos individuais”.

A força e a esperança coletivas voltadas à sobrevivência pura e simples sobressaem em tempos críticos, não importando o quão absurda seja a vida de outrora e a do porvir ao flagelo, determina Camus. A “vida como ela é” está em xeque; um caminho alternativo às expectativas existencialistas e niilistas apontadas como base filosófica purista do autor.

Construir o caminho alternativo à subjugação pela peste é, senão uma porta de entrada vigorosa, um belíssimo compêndio das fases filosóficas exploradas pelo filósofo em meio a um problema geral e concreto; o que não deveria causar indiferença ou ter base de contestação que não fosse à investigação do que levara a humanidade a aceitar e alimentar o flagelo, pois se sabe que “o bacilo da peste não morre”.

Considerado um livro de transição entre as suas duas fases mais proeminentes — segundo estudiosos da obra de Camus — , o absurdo e a revolta permanecem em constante comunicação na figura do médico Rieux: o homem que luta contra a morte virulenta mesmo sabendo da morte como destino natural e do sistema perene de vida que o carrega até lá pelo absurdo; mas que, mesmo assim, é capaz de revoltar-se contra o modus operandi dos poderes em Oran, reconhecendo e tomando o controle das ações em meio a total inoperância e consequente ineficácia ao precaver, informar e prover meios para cuidar das pessoas infectadas pela peste.

O coletivismo em tempos de crise nasce, portanto, do instinto primal de solidariedade individual que exsude, não sendo mais plausível o calar diante do extermínio irracional das massas.

Enviesar o enredo para a persona — como unidade representativa do todo — parece ser uma atenuante quando se trata da ficção de Camus. Desta forma, personificar instituições que exercem poder social confere, como recurso narrativo, proximidade e aprofundamento nas questões filosóficas basilares do autor para que a alegoria do romance surta o efeito desejado. Diluir o comportamento dos poderes constituintes e condicionantes da sociedade em agentes individuais num período de crise permite enxergar o quão longe vai o processo de massificação e alheamento da realidade dado ao indivíduo em torrentes extremas de tensão, violência, exílio e censura; o quão próximo do absurdo o homem quer estar.

O homem comum, agora como parte da massa uniforme, aumenta a contagem dos “infectados e mortos pela peste”. Assim, o agrave nos números de doentes e os inúmeros corpos empilhados em covas coletivas são incapazes de assoberbar os cidadãos de Oran, já que não possuem identidade além de “infectados e mortos pela peste”; bem como as ratazanas o foram antes. São apenas parte de um todo que não cabe qualquer individuação mínima, nem o direito a simples nomeação, menção ou procura.

Frente aos oprimidos, marginais descaracterizados, as instituições-personas racionalizam minúcias sobre os papéis imbuídos a cada esfera básica do processo civilizatório ocidental, abrindo margem para a correspondência entre responsabilidades e limitações em meio à catarse coletiva.

A grande igreja — e sua teogonia do absurdo — está caracterizada em Paneloux, que acredita ser a peste um processo seletivo para que apenas sejam remanescentes os fortes, os merecedores de habitar a terra de Deus e capazes de purificá-la e fazer jus ao seu sagrado nome. Em contrapartida, as vias midiáticas, vistas através do jornalista (pesquisar nome), que fica limitado espacialmente e sofre com a imposição da censura; a princípio não recebe permissão para retirar-se da cidade logo quando descoberta a manifestação massiva da peste e, com o estado endêmico crescente, é impedido de escrever sobre a calamidade.

O conjunto das caracterizações humanizadas culmina na incidência da peste sobre os indefesos, os realmente atingidos e dizimados pelo flagelo, incapazes de produzir qualquer auto de resistência à monstruosidade e violência desoladora do bacilo: a criança indefesa, presa à cama e impossibilitada de reagir. Todos ao seu redor assumem que não há mais chance, admitem a incapacidade em proteger as pessoas e curá-las da doença que avança e mata rápido, então tentam apenas não encarar os efeitos reais da peste; como se não encarar o flagelo face a face, como se não travar conhecimento de tamanho sofrimento ou negá-lo pudesse remetê-los a uma impessoalidade e incredulidade verossímil.

Talvez, o menino indefeso exponha mais que o grande sofrimento trazido pela peste, literal ou alegórico; aqui está exposto o princípio que amarra a filosofia de Camus: o medo. Negar a peste de começo, fez das ratazanas veículo de contaminação. Em permanente estado de negação, o passo seguinte, para o estado endêmico da peste, foi inevitável. A partir desse ponto, as perdas são inevitáveis e, mais importante, insubstituíveis.

Não raro, reagindo à provocação alegórica de Camus, imiscuir-se de posicionamento e ação é uma postura comum em instituições civilizatórias como um todo. A perpetuação de lugares comuns revisionistas, sem serem combatidos veementemente, permitirá que pestes ressurjam das cinzas, mutantes e sempre mais fortes. A cura está em aliar o conhecimento à ação concreta, como fez Rieux, apesar de tardiamente ouvido.

Porém, o sentimento de que ainda haverá a grande dissidência da razão é gritante. A mobilização das massas descuidará das antigas chagas. O risco é iminente. Os ouvidos não estarão atentos à razão novamente. Nunca se está preparado o suficiente para a peste, mesmo com todas as armas às mãos.

O Poderoso Resumão
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