Respostas (Parte 7/7) - Conto "Gigantes"

"O Peso do Pássaro Morto", livro de estreia da Aline Bei, é um fenômeno recente que remete à vida enquanto perda contínua. Os versos que abraçam e entrelaçam os vazios e perdas da protagonista redimensionam os limites de gênero dentro do romance e sua capacidade de também comunicar nas pausas e no silêncio.

Por
Caio Lima

Sei que você também busca por respostas o tempo todo, Abebe. Todos buscam. É a única que nos trespassa a ponto de juntar-nos numa unidade comum, um emaranhado gigante de pessoas cheias de perguntas, mas carente das respostas – como não poderia deixar de ser. Talvez, o percurso cíclico desse texto lhe traga algumas dessas respostas, porque… ele é justamente cíclico, porém enviesado por diferentes pontos; e cada vértice desse polígono efêmero é uma parte de um todo que sei lá como surgiu, mas que está e no fim das contas é isso que importa, não é? Estar vivo, por exemplo, deveria dizer alguma coisa muito mais importante além de que você pesa na terra. Estar vivo é tudo o que você poderia estar em essência, biologicamente falando.

Cada um com suas idiossincrasias, certo? Se o exercício aqui foi elevar pontos que convergissem com alguma fala sua em algum trabalho seu, Abebe, isso não significa que o texto tenha sido, de fato, algo preponderante à abertura de um diálogo, nem meu com você-Abebe, nem meu com você-leitor. Qualquer diálogo sofrerá do paradigma de uma vontade recíproca de gozo do texto aliada a qualquer atenção especial por algo que não seja a busca por respostas acerca do seu trabalho, mas sim às questões que eu levanto aqui pertinentes ao que fazemos quando nos metemos a tentar cativar pessoas através da arte e assim despertá-las de um longo estado de letargia, talvez, fazer que o fluxo da vida seja inverso ao conhecido por nós nesses lugares de madrugadas frias em que jamais desejamos pontos de calor. O único desejo possível é que os nossos estejam vivos e se mostrem cheios de vida em algum momento, que dissertem acerca daquilo que ouviram, leram, viram, sentiram e tocaram para que a gente possa, também, acompanhar o surgimento dos sorrisos que, agora, nós sabemos como funcionam. Fui claro quando falei que os sorrisos não precisam nem devem ser para nós, mas que devem estar entre os nossos. Então fique sabendo você que se, por acaso, você sorriu ao ler alguma linha desse texto ou ao ouvir a música do Abebe ou, espero por esse momento, sorriu ao conectar as duas narrativas, você precisa mostrar essa parada para qualquer um que seja digno de receber tamanha notícia. É meu único pedido nesse processo todo. E eu sei, mais do que ninguém, a capacidade que ambas as narrativas, minha e do Abebe, possuem no que tange ao ponto de cativar.

Não, esse não é um exercício de autoajuda. Já falei o que eu acho da autoajuda e da busca de curas instantâneas, não já? Não existe cura, vou continuar te lembrando até que esteja fixada na sua memória essa mensagem. Você carregará seus fantasmas pelo resto da vida e isso não é, necessariamente, ruim. Não é ruim ao todo. Admita de uma vez por todas que vai ser melhor assim, acredite. Precisamos carregar certas responsabilidades conosco, para que nos lembremos que estarmos vivos não é ser só mais um peso. Não mais.

Há coisas – sempre usarei coisas – parcialmente faladas no texto, porém é difícil transgredir a barreira das palavras. Muito do que penso e sinto me é indizível ainda, e acredito que seja assim com você também, Abebe. O indefectível mundo das palavras não é profundo o suficiente. Símbolos, como um todo, não são suficientes quando tratamos do que somos. Mais insuficientes os símbolos são ao revelar as descobertas recentes, já que estamos completamente inundados por sensações incapazes de serem descritas apenas como euforia, felicidade, excitação ou qualquer outra palavra que funcione como gaiola para atribuir sentido. Eu, por exemplo, descobri o prazer de ser professor e o quão isso me é premente como devir, potência, condição de vida ou qualquer palavra filosófica que seja insidiosa o suficiente para exprimir o sentido de força e que caracterize vontade em fazê-lo. A vida é, afinal, esse conjunto de forças e vontades expressos em palavras mínimas que para o alguém-filósofo abrange tudo, mas que para mim nada significaria senão uma maneira de tentar alcançar você em algum aceno verbal, tipo todo o trabalho cíclico desse texto que continua e nunca vai parar porque a palavra é seu próprio ouroboros e assim também é a vida, entendem?

Não há palavra que me prenda a um determinado texto da mesma forma que não tem versificação que prenda o flow do Abebe. Tudo que nos prende está extinto antes mesmo de nos matar, por isso é importante não desperdiçar as poucas sortes que damos na vida. As jaulas mudam o tempo inteiro fazendo seus olhos estarem sempre abertos, e assim estamos todos apegados aos clichês confortáveis iniciados por nossas mães e, meu deus, sim, é isso, por isso que também procuramos uma cura instantânea para tudo aquilo que nos consome, mesmo sabendo instintivamente que nossos fantasmas estarão lá para sempre. Os medos, a pobreza, as várias mortes em vida e a prisão em que estamos, tudo isso muda o tempo inteiro, meu chapa. E sabe o que é pior? Muda antes da gente ver, mesmo andando a vida inteira de olhos bem abertos. Ninguém enxerga nada a tempo, parece que os olhos abertos só captam aquilo que é passado.

Não enxergar transforma todo sentimento em impotência e, com certeza, você já se viu impotente. Eu me sinto assim nesse exato momento, que já é passado para você. Mas é muito provável que no momento da sua leitura, eu ainda me sinta impotente. É terrível você não conseguir chegar a tempo, enviar ajuda, estar perto, fazer a coisa certa e/ou saber o que fazer – no mínimo – quando mais precisam que você faça as coisas – que tomam uma conotação extremamente triste nesse ponto da conversa, afinal, coisas são inomináveis e tristes (revelado o mistério da minha palavra comprada e, por isso mesmo, preferida).

A impotência já me fez desistir, recuar de minhas posições e tomar atitudes conservadoras. A mesma impotência já me jogou no mundo sem qualquer pudor e me deixou à mercê das várias sortes que até hoje fui incapaz de reconhecer e retribuir. Isso me faz crer que não posso, jamais, simplesmente me desfazer de quem tenha se colocado numa posição de defesa extrema, ignorando todo e qualquer contexto repressivo como consequência da sua posição e, tampouco, me desfazer de quem tenha se perdido completamente e não sabe mais o caminho de volta. A impotência é a primeira manifestação da loucura, eu digo. Impotência é a força-motriz de qualquer tomada de decisão do consciente coletivo. Impotência é o que define os nossos.

Acho que o mistério dessa coisa maluca que é a vida é entender em que, quando e como nos tornamos uma fonte quase inesgotável de impotência para tentar, de forma minimamente racional, reverter esse quadro; mesmo sabendo da nossa suscetibilidade à recaídas e voltas quase que eternas.

O dilema de gerações permanece enquanto lutamos pelo direito de manter os nossos vivos, apenas. Nada me tira da cabeça que a vontade de manutenção da vida está mais ligada à capacidade de cada um em encontrar as respostas que ao direito a vida promulgado por lei tão somente. O direito é um subterfúgio do indizível também. O indizível pede a contrapartida da segurança, da garantia até que se descubra como dizê-lo em toda a sua profundidade. Nada me garante a vida além da razão básica do próprio viver em potencial. E ainda assim devo protegê-la a qualquer custo.

Por isso, que eu voltarei aos sorrisos e aos olhos abertos, Abebe. Você diz que sua mãe disse que você sempre foi diferente, que você nasceu sorrindo. Então eu quero que você me diga quando, afinal, os nossos serão tão diferentes quanto nós somos, Abebe? Quantos nascerão diferentes a partir de agora? Como chamaremos os nossos pelo nome a partir de agora? Como você vai ser lembrado amanhã? E depois? Quantas vezes ainda teremos que encarar a morte face a face? Quantas curas ainda vão aparecer para salvar milagrosamente àqueles que não podem ser salvos? O que você aprendeu hoje? O que você aprendeu para chegar até aqui? Quais clichês te formaram? Quais clichês você transmite? O que você sacrificou para ser o que é? O que você pode sacrificar mais? Quais os seus fantasmas? Quantas sortes apareceram no seu caminho? Quem é você?

Sei que você jamais me responderá a essas perguntas, Abebe. Sei porque você jamais as responderá de fato. Nenhuma resposta direta vai ser dada a você, mas com certeza elas estão todas jogadas pelo caminho e convulsionam. A beleza é convulsão, ou não será. E aqui está toda a beleza, Abebe. A busca pelas respostas que jamais seremos capazes de dar completamente, porque todas as respostas lideram a mais perguntas, intermináveis. Por isso todo esse texto é cíclico, como os processos da vida o são. Mas, pelo menos, ao repassá-los, o processo da vida e o texto, sei que haverá um sorriso onde quer que esteja e ao chegar nesse ponto de transição ou de recomeço, você se lembrará de muita coisa. Também vai se lembrar que é complicado, Abebe, sorrir é complicado. E vai se dar conta de ter aprendido. E finalmente entenderá que vai recomeçar quantas vezes forem necessárias, até que os nossos sejam os maiores a terem pisado na Terra, até que os nossos sejam gigantes.