Sorte (Parte 5/7) - Conto "Gigantes"

"O Peso do Pássaro Morto", livro de estreia da Aline Bei, é um fenômeno recente que remete à vida enquanto perda contínua. Os versos que abraçam e entrelaçam os vazios e perdas da protagonista redimensionam os limites de gênero dentro do romance e sua capacidade de também comunicar nas pausas e no silêncio.

Por
Caio Lima

À minha maneira, eu acredito na sorte. Coleciono cagadas a vida inteira. Isso não significa que eu não trabalhe duro. Inclusive, acredito que o trabalho duro é capaz de ganhar do talento e/ou da inteligência puros. Pelo espectro fabril e maquinal no qual fomos criados, trabalhar, trabalhar e trabalhar pode ser, sim, mais recompensador que o respeito ao próprio tempo e a atenção às necessidades básicas, embora eu pregue o absoluto contrário. Sou um criminoso e imoral por pregar a inversão de valores, me diga você.

Se você leu até aqui, pode ser que agora bata a decepção com o tom dado à narrativa, mas eu já havia alertado antes (ou não? (agora não sei (mesmo))) que não fazer jus ou quebrar expectativas é um dos meus maiores talentos, quase um hobby. E é outro momento de orgulho, dos poucos a que me reservo. Ouso cultivá-lo sempre que possível, porque detesto aqueles olhos sedentos que as pessoas jogam sobre mim quando eu faço a coisa certa e automaticamente passam a me enxergar como alguém à frente do meu tempo, além do que eu sinto e sei que sou (essas palavras são versos de alguma música (tenho certeza)). Sabe como é, né? Aquele povo cheio dos papinhos, com aquelas ideias de que eu deveria iluminar, responder ou mostrar coisas — coisas, sempre coisas — que eu não sei trazer à luz da razão, que me são indizíveis ou que eu não sei reproduzir por tudo ser fruto de uma grande cagada. É por isso que eu escrevo e você faz o que faz: para documentar a investigação de tudo o que nos cerca; para manter viva a memória.

E assim eu trabalho mais que todos os meus críticos juntos (porque investigar e documentar a investigação não são tarefas simples (podem ser para você, que documenta sua estadia terrena em horas de gravinas em estúdios e shows lotados, por exemplo), mas saiba que escrever também requer certa disciplina, senão sai tudo uma merda (e o pior é me perder no que escrevo, porque nada me garante que isso aqui não tenha saído uma merda também)).

Eu comentei sobre saber seu lugar no mundo, não foi? Antes que eu me perca divagando. Mas é difícil que eu me perca assim, porque a sorte está muito ligada a essa coisa de saber seu lugar no mundo, mesmo que sejam poucos os capazes de reconhecê-la quando esta bate à porta e abre os braços, e quem sabe um sorriso bacana. Aí a cagada não está relacionada com a sorte como fato, mas com o não aproveitamento de uma sorte que pode, sendo a única em vida talvez, passar batido. Dessas eu não coleciono muitas, por sorte. Não sei você. Voltando. Repito, então: todo mundo tem, ao menos, um momento de sorte na vida. E, normalmente, esse único momento de sorte está relacionado a uma visão de si mesmo em paridade ao outro, não importando quem seja. A relação paritária consiste de um pequeno jogo pouco praticado, pois exige que sejamos humanos-demasiado-humanos e nos reconheçamos no outro. E isso é complicado.

Ninguém quer reconhecer seu humanismo deficitário, falho, frio e correr os riscos de deixar o nome sujo na pista. Pode parecer romântico falar sobre isso agora, em tempos que sobreviver e resistir são necessidades prementes. Mas o tom dessa narrativa aqui é de sobrevivência e resistência. Não se enganem pelos meandros e subterfúgios narrativos que eu imponho ao que escrevo, existe um objeto sendo investigado e eu sei bem o que faço (mesmo quando não sei o resultado exato dos meus esforços ao fim e ao cabo). Está tudo muito claro, embora não pareça. A literatura tem dessas coisas. Enfim. Olha, é cansativo (e um pouco humilhante também), mas vou falar algo muito romântico para que você perceba a diferença dos tons: eu quero ganhar a vida como escritor. Essa é uma frase romântica. Todo mundo sabe que não se vive como escritor no Brasil. Muito menos do jeito que eu escrevo. Em termos práticos e financeiros: perde-se muito, nada de ganhos. Mas insisto. E isso é ser muito romântico, cara. Eu me sinto uma personagem das tragédias de Shakespeare toda vez que paro para escrever (todo dia, basicamente). Daí conclui-se que eu sou romântico pra caralho (advérbio de intensidade (máxima, no caso)). Sem dinheiro (alô lei Rouanet) e sem patrocínio (alô Adidas), sozinho e me alimentando das palavras que escrevo.

Eu não escreveria e não encheria essas linhas com conexões poéticas estapafúrdias e desnecessárias se não me coubessem às roupas do romantismo que pratico ao escrever, é claro. O processo de criar uma identidade não é novidade. Possuir mil flows quando se precisa de apenas um pra passar a visão. Tudo é uma questão de estética e de habilidade na prática também, isso impressiona e atrai. Às vezes mais que a ideia em si. E mais uma vez eu dei sorte quando decidi tocar no assunto do romantismo (e mais uma vez estou cagado (já falei do meu gosto por piadas de humor duvidoso, né? (ou não?))).

Não possuo dados estatísticos em mãos para compor essa narrativa e torná-la tão verossímil quanto os clichês que nos formam. Até porque esse não é um espaço para o cultivo do medo anacrônico, apesar de ser um fato crítico para ambos: eu que escrevo e você que lê. Gostaria muito que esse fosse um espaço de liberdade, porém entendo que não dependa única e exclusivamente de mim a construção de tal espaço; que é um espaço mútuo, amplo e ermo — o mesmo do começo, o mesmo do sorriso. A narrativa é apenas a fundação da coisa — olha a coisa aí — toda, uma tentativa de abrir diálogo. A arte, em essência, é dialógica mesmo quando não quer ser — o que não é o caso.

Insisto em dizer que existe uma sorte comum a todos e que é factual ao menos uma vez na vida. Passaremos todos por ela num dado momento, isso é certo. E essa coisa de saber seu lugar no mundo vem como uma revelação. Por isso eu ainda levo seus castelos e ruínas tão a sério. A construção e a destruição dos ciclos e do aprendizado, das diferentes mortes e fugas, fazem parte dessa coisa de saber seu lugar no mundo. Naquele momento, apesar de não muito reconhecido até meses depois do lançamento, você sabia exatamente quem era e o lugar que ocupava no mundo. Eu respeito muito esse senso de colocação no espaço-tempo. O que veio depois ficou meio embolado, mas ao que me parece as coisas estão se ajeitando, certo? São ciclos ou aprendizados, defina como preferir.

Até que chegamos ao fato crítico que é a narrativa em questão. Se você estivesse perdido, eu não conseguiria abrir esse diálogo. Claro que você pode estar perdido e eu posso ter errado ao passar essa visão toda, então todo o meu trabalho não vai abrir diálogo nenhum e você perdeu seu tempo lendo até aqui. Enfim. Riscos que corremos. E voltamos. Porque, sendo sincero, aqui, infelizmente, tratam as revelações como uma espécie de tazo no Fandangos; um brinde que confere luxo ao produto. Por isso que vender curas faz tanto sentido pelas bandas de cá. Transformam uma mentira em um produto caro e comum e vendemos no atacado, orgulhosos. Pesquisa: como abrir um quiosque de paletas mexicanas. Segredo: são brasileiras. O empreendedor médio brasileiro é uma piada por si só, aliás. No México são as paletas brasileñas, levadas por um também brasileiro. Que grande mar de bosta, cara. Mas faz algum sucesso e insistem na coisa — muita coisa na coisa de insistir e ter sucesso. Vai entender. O problema é que a grande maioria das pessoas daqui não pode ter o luxo de um sorriso na cara que tomam alguma espécie de enquadro, quanto mais comprar Fandangos ou paletas mexicanas. Imagina, então, ter que pagar pela cura — que não existe?

É o que acontece. Por isso os olhos sedentos em cima de você. Por isso deve-se tomar cuidado ao sorrir demais. Olhos abertos e aquela coisa toda. Não é um simples aviso. Ainda tento entender os porquês de tantas pessoas aproveitarem tão pouco a sorte que tem.

Deixar a sorte passar não é um business explícito assim, você não deixa a sorte ir embora porque marcou bobeira, porque é burro, lerdo, idiota ou sei lá o que mais, como estamos nos acostumando a pensar. Não é apenas uma relação mercantil, de simples compra e venda, veja bem. As coisas — comprei a palavra coisas e uso quando eu quiser — que realmente importam ainda não estão precificadas e cadastradas no sistema, com código de barras e tabela nutricional. Todo mundo guarda alguma coisa mais profunda. Todo mundo dá a sorte de, pelo menos uma vez na vida, entregar essa profundidade abissal nas mãos de alguém ou alguma coisa — não sei o que fazer mais depois que comprei a palavra coisa, a não ser usá-la indiscriminadamente por motivos de querência e fazer jus ao dinheiro gasto (sem poder, claro). Por mais que o dinheiro seja uma constante indelével e em contínua ascensão para a constituição do conceito de conforto e vida boa e satisfação; e burle qualquer senso de profundidade para ser presente e importante ao mesmo tempo (presença e importância possuem conceitos diferentes (e eu não me encaixo (em amplitude) em ambos os casos (você talvez sim), como é perceptível)). Os preços, insisto e resisto, estão nas sensações tangenciais, na superficialidade do que dá status às coisas. Como não se compra essas coisas, fazem-nos acreditar que comprando os adereços teremos o mínimo de acesso a elas.

Afinal, Abebe, quando você faz um show, por exemplo, compram os seus flows ou suas ideias ou tudo junto? É uma questão meio difícil de responder, porque, como dito, tudo que é meio é relativo, e com o reconhecimento do seu trabalho o seu público expande. Torna-se relativamente difícil dizer o que eles esperam de você que não o seu “melhor”; que é uma coisa subjetiva e muito poderosa. E você, assim como eu, será obrigado a quebrar muitas expectativas caso queira levar essa coisa de “fazer o seu melhor” pra frente como eu acho que faço quando escrevo, entende? Mas fica tranquilo que, garanto pra você, “fazer o seu melhor” e quebrar expectativas vai acabar se tornando prazeroso, uma espécie de hobby. Porque poder “fazer o seu melhor” é uma sorte grande demais para não ser aproveitada até o último gole; e a sorte teria por obrigação nos revelar o nosso lugar no mundo quando nos é cobrada à entrega e transparência em níveis tão altos, mas nós somos apenas os montadores de móveis com um móvel sem instruções de montagem nas mãos. A sorte não é vendida, Abebe. Nem tudo tem um preço.

Acredito que a essa altura do campeonato, mesmo com tanta coisa — estou amando ter comprado uma palavra inteira — acontecendo ao mesmo tempo, você já tenha refletido o mínimo que seja pra afirmar aqui nesse diálogo, no seu particular aí na sua cadeira em frente à tela, qual é seu lugar no mundo. Viu como a memória funciona quando cultivada? Não existe sorte maior que essa. Mostrar-se assim, inteiriço, é saber seu lugar no mundo. É tudo o que deveríamos fazer o tempo todo, mas é uma dificuldade enorme enxergar o óbvio. E agora estamos comprando as ideias erradas também. Mas já que você viu como se descobre o seu lugar no mundo, duvido que você não vá colocar sua sorte e a dos seus à prova. Assim sorrir fica um pouco mais fácil, Abebe. Tudo é uma questão de sorte na vida. De aproveitá-la, no caso.